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Minhas inquietações quanto à igreja e os debates sociais

Posted on 01 abril 2015 by admin

Na agitação do dia-a-dia, ouso rebelar-me contra o frenesi do ativismo e parar para refletir um pouco. Parar não está mais na agenda de ninguém. Não há mais espaços em branco em nossas agendas que nos levem à reflexão, ao “não fazer” para refletir sobre o “ser”. Por isso parar a fim de refletir é um ato de rebeldia contra um sistema que nos consume por inteiros, levando-nos a ganhar o mundo enquanto vamos perdendo a nossa própria alma.

O motivo dessas linhas é pôr em questão a maneira como a igreja de Cristo vêm se posicionando diante de tantas demandas sociais que surgem todos os dias. Tenho acompanhado alguns posicionamentos de cristãos diante de temas tão graves e me pergunto se estaríamos prontos para ouvir o que Jesus teria a dizer sobre a igreja do século XXI.

Na medida em que surgem os debates que mobilizam a nação, a sensação que tenho é de que a agenda da igreja está cada vez mais longe da agenda de Jesus. O discurso moralista, inflamado de ódio e carregado de senso comum por parte de alguns setores da igreja me deixa preocupado. Preocupo-me pelo fato de que quem fala pela igreja, não a representa e nem está comprometido de fato com a mensagem dela. Entreguei-me desde a mais tenra adolescência para militar por esse organismo que, creio eu, é a esperança para mundo, mas na medida em que acompanho com perplexidade o atrofiamento da mensagem genuinamente cristã que dá espaço para um discurso que fala pelo dominador, confesso que me pergunto se vale a pena permanecer na peleja. Tenho lutado para não perder as esperanças, mas a cada posicionamento contrário de cristãos frente a questões sobre as quais Jesus se colocaria a favor, é como um golpe nessa esperança que tenho tentado manter viva.

Quando ouço discursos de ódio, quando vejo que o moralismo se põe acima da misericórdia, quando percebo o aburguesamento da mensagem cristã encarnada na teologia da prosperidade que se tornou hegemônica nos púlpitos das igrejas, quando percebo a instrumentalização da bíblia que é usada para justificar interesses escusos, sinto que o oprimido está ficando cada vez mais sem uma voz que lhe defenda – e não apensa sem um defensor, mas com aqueles que seriam os únicos a lhe defenderem, agora como seus acusadores. Onde vamos chegar com isso? Criaremos a versão pós-moderna da Ku klux Klan (uma organização protestante de intolerância contra os excluídos sociais)?  A perda da esperança da igreja na restauração do homem tem me feito perder a esperança nela. Esses dias fui duramente criticado por um homem cuja foto do seu perfil tinha um batistério como pano de fundo – então pensei: “como alguém que tira uma foto na frente de um símbolo de regeneração humana pode pensar assim?”. Isso nos diz que o batistério deixou se ser o lugar em que olhávamos para homens e mulheres sem jeito diante de ma nova chance, para ser um ato pró-forma de adesão à igreja, de preferência por pessoas socialmente aceitas.

Preocupo-me com o fato de que o vácuo que temos deixado seja preenchido justamente por correntes contrárias ao Evangelho de Cristo. Ao nos calar em relação ao oprimido e ao desamparado, quem assumirá a sua defesa?

Acredito que o marxismo, por exemplo, foi uma vingança da sociedade contra a omissão do Corpo de Cristo. Ali o pobre explorado estava no topo da lista da sua pregação, enquanto a religião estava no topo da sua lista de inimigos. Hoje presenciamos horrorizados grupos extremistas que se articulam ao redor do mundo desafiando a ordem e a paz, mas não podemos esquecer que tais grupos surgem no vácuo deixado por quem poderia exercer o poder de maneira justa.

Sugiro que nos voltemos para as páginas do Evangelho e estudemos cuidadosamente como Jesus se posicionou em relação ao órfão, à viúva, ao encarcerado, ao pobre, à prostituta, aos poderosos e ricos desse mundo, aos governantes e aos religiosos. Diante de um debate sério e comprometido com a mensagem e vida de Jesus, estaremos prontos para perceber o mundo que precisa de transformações profundas.

Marcos Arrais

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