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A “Substância Católica” e O “Princípio Protestante”

Posted on 26 julho 2014 by admin

O teólogo Jorge Pinheiro em seu livro “Teologia Bíblica e Sistemática: o ultimato da práxis protestante” (Fonte Editorial) aborda uma questão muito interessante: o conceito de “substância católica” e “princípio protestante”. A “substância católica” é entendida no aspecto da revelação universal. Tal revelação diz respeito à graça comunicada a todas as culturas. É algo intrínseco ao próprio homem. A substância  católica “é a automanifestação do Eterno a todos os seres humanos, em todos os lugares e em todas as épocas por meio da criação” (PINHEIRO, 2012, p.36). Não há cultura sem essa dimensão, pois todas cultivam alguma noção de espiritualidade que se revela na religiosidade de um povo. Poderíamos dizer que a religião é a forma como a dimensão do transcendente, do eterno se manifesta na materialidade de uma cultura local. A noção do bem e do mal, as questões envolvendo a teodisséia, a angústia da morte e a intuição do sagrado são fatores inerentes ao próprio homem.

 Há que se considerar esse aspecto na comunicação do Evangelho, não desprezando a ação divina nas culturas do planeta, mas usando-as como matéria-prima para a comunicação específica das Boas-Novas de Cristo. Aqui entra o que Pinheiro chama de “princípio protestante” que é a graça comunicada de maneira específica ao apresentar a personalidade divina, ou seja, é a comunhão ética da graça. Como bem afirma o autor, o princípio protestante é “a manifestação da essência na existência” (p.31), ou seja, é quando ocorre o direcionamento para a mensagem do Reino de Deus:

 Princípio protestante é revelação especial e particular, automanifestação do Eterno para pessoas, tempos e lugares definidos, através do evento crístico, a fim de que pessoas entrem num relacionamento redentor com ele (p.47).

 Se a substância católica é a percepção da ação divina nas culturas humanas, o princípio protestante é o ponto em que essa ação converge para Cristo: “É por meio do símbolo da cruz que desaparecem as particularidades e o finito do evento Jesus, dando lugar ao significado do Cristo” (PINHEIRO, 2012, p.31). É pelo princípio protestante que não se pode confundir “universalidade” com “universalismo”, ou seja, o coração humano tem necessidade de mais do que saber acerca da transcendência da vida, bem como da existência do bem e do mal; ele precisa conhecer a maneira como Deus interviu na história humana revelando a Sua graça em Cristo. Também não se pode, pelo princípio protestante, subestimar as ações divinas nos corações humanos, como bem observa o autor: “Por isso, a relevância do kerigma cristão deve andar em aliança com o conhecimento da presença do sagrado expresso na cultura e nas dobraduras da secularidade” (p.32). Deus age constantemente nas culturas, mesmo assim convida o homem a participar dessa comunicação.

O autor identifica duas formas em que a igreja se manifesta: a “igreja latente”, ou seja, aquela que está presente nas culturas por meio do princípio moral escrito nos corações de todos os seres humanos (Atos 14.17; Romanos 2.15) e do princípio da espiritualidade nas religiões e na cultura; Pinheiro também demonstra a “igreja manifesta”, ou seja, aquela em que Cristo é o elemento central. Assim, cabe-nos a tarefa de fazer a transição de uma “participação latente para uma participação manifesta na comunidade espiritual” (p.32).

Perceber essa “comunidade latente”, que já existe mesmo antes da revelação central é fundamental para o progresso da “comunidade espiritual”, que se manifesta depois desse encontro. É o “evento crístico” (p.35).

A compreensão da substância católica tem implicações diretas na forma como interpretamos a bíblia, pois não se pode desconsiderar o elemento humano na composição do texto inspirado, uma vez que o próprio escritor sagrado estava mergulhado e condicionado em sua historicidade, ou seja, o homem não foi um instrumento automático na escrita do texto sagrado, mas a sua percepção deu-se por meio de um “processo de adequação histórica” (p.40,41) como parte do próprio contexto sociocultural em que estava inserido, construindo os seus conceitos a partir dessa percepção, dando significado imanente ao sentido da revelação. Assim,

 No processo da revelação, a pessoa se encontra em processo de construção, já que não é plena senhora do processo. É um ser colocado no espaço e no tempo, que estabelece relações com a realidade que o cerca dentro desse processo de conhecimento enquanto dimensão histórica e humana” (PINHEIRO, 2012, p.41)

Outra implicação importante é no que diz respeito ao fator “linguagem”, pois é pela linguagem que a substância católica é representada e comunicada a todos traduzindo-se no tempo e no espaço. Por fim, a substância católica inclui a fé, pois esta não se trata simplesmente de conhecimento racional, mas de percepção intuitiva e afetiva (2Ts 2.10).

 

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