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“Alemanha x Brasil” ou “Trabalhador x Aventureiro”?

Posted on 10 julho 2014 by admin

 

O apito toca e o jogo começa. Sem aviso prévio, o “gigante pela própria natureza” vê-se desnorteado numa goleada sem precedentes na sua gloriosa história  de mundiais. O time alemão massacra o time canarinho que sai de campo diante de um vexame histórico aos olhos do mundo inteiro.

Muitas explicações têm sido dadas para, nas palavras do goleiro Júlio César, “explicar o inexplicável”. Mas será que é tão inexplicável assim? Para “explicar o inexplicável”, sirvo-me das ciências sociais e mais especificamente do pensamento do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda que, ao meu entender, explicou tão bem a psique do brasileiro em seu livro “Raízes do Brasil”. No capítulo “Trabalho e Aventura”, Holanda contrapõe as figuras dos seus tipos ideais: o português com seu ímpeto para a aventura e a imprevidência – e o holandês protestante com seu “espírito de empreendimento metódico e coordenado, em capacidade de trabalho e coesão social”.

Historicamente arrastamos por aqui o ideal de “colher o fruto sem plantar a árvore”. É aquela “suavidade dengosa e açucarada” que se entranha em todo o tecido social brasileiro desde o período colonial. Assim, o privado serve de base para o coletivo, o individual para o social, por isso “as relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós”. Isso plasmou uma característica avessa à rigidez e favorável à desorganização e à informalidade. Formaliza-se a informalidade mesmo nos tratos públicos. Aqui se vê o “homem cordial” com seu comportamento afetivo e impessoal, que apela para a emotividade, mas esconde as relações de poder e opressão. Nasce o típico malandro brasileiro que com seu “ziriguidum” e cheio de “quas quas quas” transforma o espertalhão e o gigolô num modelo de herói nacional.

Pois bem, é essa psicologia que entra em campo com a terra de Carlos Magno, Otho, Lutero, Beethoven, Schumacher, Einstein, Nietzsche, Marx, Weber, Freud etc., etc. Quando entra em campo o aventureiro com sua emotividade e informalidade (afinal de contas por aqui aplaudimos quando cantamos o hino e ainda extrapolamos mesmo depois que o tempo regulamentado para cantá-lo acaba) e o trabalhador com sua austeridade, disciplina e resiliência de duas grandes guerras mundiais. Quando cantamos o nosso hino, o fazemos com emotividade; quando eles cantam, o fazem com solenidade – Holanda observa que “no Brasil é precisamente o rigorismo do rito que se afrouxa e se humaniza” – isso favorece as explosões emocionais que tanto caracterizam nossos comportamentos sociais. Com todo respeito e medidas as proporções, é o mesmo que comparar “Fred”  e “Beckenbauer”!!

Não estou aqui me posicionando contra o nosso time e nem arriscando palpites sobre como deveria ter sido o esquema tático do Felipão, mas sugerindo que podemos tirar lições preciosas dessa experiência: Por que um país que se levantou das cinzas tenebrosas das duas mais terríveis guerras da história e hoje é uma das maiores potências do planeta venceu o “país do futebol” (um mito absurdo que criamos)?

O Brasil ainda é um país que precisa ancorar-se no personalismo. Aqui ainda vence eleições quem tem carisma e não quem tem propostas. Procuramos um salvador da pátria: um Vargas, um Lula ou quem sabe um Neymar e, quando eles nos faltam , resta-nos um sentimento de desamparo total! Como Sérgio Buarque de Holanda bem descreve, entra em campo o aventureiro que busca riqueza que não lhe custe trabalho, mas ousadia – e o trabalhador que “enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar”.

É isso aí!

Marcos Arrais

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