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Religiosidade Flex – Parte 03

Posted on 03 fevereiro 2014 by admin

 

Simpatia  góspel ou contextualização moderna da fé? Na busca por fiéis, vale mesmo tudo ou existe algum limite? E se existe, qual seria?

A imensa diversidade religiosa a qual me referi em artigos anteriores se dá em parte pelo que o sociólogo Max Weber denominou de um processo de “desencantamento” em que o homem deixaria de explicar os o mundo como resultante de fenômenos mágicos para entende-los a partir de fatos científicos. Assim, a religião vai deixando de ser um assunto público para restringir-se à esfera privada (embora sua influência no público seja gigantesca). Com a desestatização da religião, abriu-se um vácuo para um pluralismo religioso, uma vez que não há mais nenhuma centralização desse aspecto por parte do Estado. Weber então apostou na “secularização”, onde as pessoas passariam de uma atitude de “recusa do mundo para uma atitude de aceitação” (Guerreiro, 2013, p.192). Dessa forma a religião vai perdendo o seu papel de legitimadora da sociedade para se tornar um assunto estritamente pessoal.

Ocorre que a perda desse espaço deu-se mais no âmbito das religiões majoritárias como é o caso do cristianismo representado pela Igreja Católica, que se transformou no maior “doador” universal de fiéis para as outras religiões. Deste modo, abriu-se caminho para que novos movimentos religiosos surgissem no cenário social – é o que alguns estudiosos do assunto já chamam de “retorno ao sagrado”, “reencantamento” ou “descecularização”.

Para a socióloga Françoise Champion (1997), a característica marcante da nova religiosidade é seu aspecto de bricolagem, ou seja, o próprio indivíduo monta e remonta o seu conjunto de crenças e práticas de acordo com o que mais lhe for conveniente. É a religião à la carte. Para a autora, é mais que um sincretismo, é um ecletismo, uma vez que não existe uma síntese, mas a justaposição de diversos elementos provenientes das mais diversas fontes religiosas. Como afirmei anteriormente, o que interessa não é “como” funciona, mas “se” funciona.

Portanto, presenciamos uma religiosidade flutuante e difusa – flutuante porque ela transita entre as mais diversas formas de fés – e difusa porque não se sabe ao certo onde começa e termina a influência de determinadas crenças na montagem dessa criatura que mais lembra aquela criada pelo doutor Frankenstein!

O protestantismo não ficou livre desse fenômeno, mas adaptou-se tranquilamente num processo simbiótico onde crendices populares fundiram-se a dogmas entes pétreos. Assim deu-se origem a uma teologia “sem pé e sem cabeça”, ou pelo manos com pés e cabeças montados pelo pragmatismo moderno.

Sem preocupação com coerência, vamos assistindo pastores vestidos de branco com a proposta de “tirar encosto” usando sal grosso e ervas, à semelhança de pais-de-santo; presenciamos também padres que trocaram a batina pelo terno e gravata e fazem fervorosas prédicas ao estilo pentecostal. Claro que a questão não está na roupa em si, mas no mundo simbólico que gira em torno dessas indumentárias. Assistimos seitas exóticas, para não dizer bizarras, como a dos “templários” em que fica explícito o objetivo financeiro no angariamento de fiéis. Há também as “igrejas de ateus” em que há coleta de ofertas, pregação e música em seus “cultos”. Na pós-modernidade há espaço pra tudo!

Estaríamos caminhando para uma espécie de colcha de retalho religiosa em que a preocupação com a originalidade seria a última coisa a ser pensada, ou caminhamos para um diálogo cada vez mais tolerante entre crenças que deveriam ser naturalmente incongruentes?

Marcos Arrais

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1 Comments For This Post

  1. Gabriel Dias Says:

    Fenômeno que se vê de forma clara no âmbito da revolução tecnologica que diz respeito a terceira onda de Alvin Toffler, onde os papéis, do ponto de vista comercial e empresarial, se invertem, se misturam, se agrupam. Empresas de TV a cabo oferecendo serviços de internet, livrarias on-line competindo com video locadoras, empresa de telefonia oferencendo serviço de tv High Definition, enfim… Tudo junto e misturado. Algumas denominações de base cristã se deixaram invadir pela onda, só que misturaram o que não se mistura, inverteram papéis que não se invertem, mudaram o que não se muda. Daria uma bom TCC..rsrs. Revolução Tecnológica e o Ecletismo Religioso.
    Abraço!

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