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Religiosidade Flex – parte 01

Posted on 29 janeiro 2014 by admin

“É álcool ou gasolina?” – “Tanto faz!”. Assim anunciava a campanha publicitária da Fiat para divulgar os novos veículos flex que entravam no mercado. Com motores adaptados para os dois tipos de combustíveis, os novos carros entraram no mercado prometendo comodidade, conveniência e economia.

Não seria tal ideia compatível com a natureza mestiça do brasileiro? Por sermos um povo de muitos matizes culturais, não nos incomodamos quando o assunto também é religião. Para se ter uma ideia, no Senso de 2000 foram apontadas pelo menos 35.000 confissões religiosas em território nacional. Isso mesmo: t-r-i-n-t-a-e-c-i-n-c-o-m-i-l. Isso dá a ideia do nosso imenso pluralismo religioso e cultural, e demonstra a multiplicidade do caráter largamente assimilatório do povo brasileiro que já em sua formação fora constituído por um vasto leque cultural de povos que aqui fincaram suas raízes.

A facilidade com a qual o brasileiro aceita, incorpora e monta seu próprio repertório de crenças, além de ter sua causa em fatores peculiarmente culturais, também encontra sua explicação no espírito pós-moderno, bastante relativizado e tolerante. O Sociólogo Zygmunt Bauman, expressa muito bem essa realidade quando trata da modernidade líquida, afirmando que a base social que apresenta rigidez é substituída pela flexibilidade com a qual o homem pós-moderno se comporta em todos os campos da sua vida, inclusive o religioso. No caso brasileiro, temos o agravante de sermos um povo que desde as suas raízes coloniais abrigou com facilidade as confissões religiosas e comportamentos culturais que aqui chegaram. Somos uma cultura acentuadamente híbrida, formada a partir de diferentes povos que se fundiram quando aqui se encontraram. Isso explica a “dupla (ou mais) pertença” com a qual o indivíduo pós-moderno, multi-identitário se comporta. Temos, então, umbandistas que se consideram católicos e protestantes que incorporaram práticas xamãs e umbandistas em seus cultos, tais como energização de objetos, usos de rituais próprios das religiões afros, e invocação de espíritos, sem mencionar a Nova Era com suas práticas esotéricas que refletem muito bem o espírito líquido do homem pós-moderno, desvinculado de instituições.

Dessa forma, criamos a nossa própria religiosidade. Uma religiosidade a brasileira. Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro “Raízes do Brasil” observa que “no Brasil, é precisamente o rigorismo do rito que se afrouxa e se humaniza” (HOLANDA, 2013, p. 149).

Parece que a religiosidade brasileira não se contenta com uma crença rigorosa, afinal de contas “tanto faz” quando a questão é resolver os nossos problemas. Dessa maneira, misturamos os combustíveis pois o que importa é fazer o carro andar!

 

Marcos Arrais

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2 Comments For This Post

  1. Bruno Queiroz Says:

    Excelente!

  2. Anésio Rodrigues Says:

    Muito bom!
    Excelente reflexão.

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