Categorized | Artigos

O lugar do pastor na nova sociedade

Posted on 19 julho 2012 by admin

Temos vivido tempos de profundas mudanças. Essas transformações têm ocorrido em todos os campos da sociedade: família, Estado, escola, igreja… Na verdade essas modificações têm sido mais por uma rediscussão dos papéis das instituições à luz das novas realidades, reavaliando suas funções do que de fato propor novas instituições.

No entanto, quero me ater ao aspecto do campo ministerial, eclesiástico, por se tratar de um universo onde muitas vezes nos confundimos diante das demandas dos novos tempos.

Quem é o pastor? Quais são os seus desafios na sociedade pós-moderna? A falta dessa compreensão tem desencadeado uma série de conflitos e crises que muitas vezes nos desnorteiam, fazendo-nos perder o rumo diante da confusão que nos encontramos.

O pastor-teólogo

Por muito tempo a imagem do pastor esteve ligada quase que estritamente ao papel do teólogo. Isso tem uma explicação. A sociedade era fortemente arraigada em princípios morais e éticos onde se cria em absolutos. A doutrina, portanto, era a âncora da fé sólida, guardando-nos de desvios iminentes. Nesse período os credos e confissões eram base de sustentação das convicções. O pastor era o guardião da fé, o teólogo por excelência, o apologeta zeloso. Termos como “heresia” e seus adjetivos, e “sã doutrina” eram bastante utilizados.

A intensão era legar às futuras gerações uma fé evangélica fortemente arraigada nas Escrituras – “sola Escriptura” era o grito dos reformadores. A ênfase estava no conteúdo bíblico-doutrinário e as instituições teológicas eram os quartéis-generais onde se treinavam os obreiros. As igrejas colocavam ênfase nas Escolas Bíblicas Dominicais, nos cultos de estudos bíblicos, nos institutos teológicos. Havia uma preocupação no conteúdo doutrinário em relação aos cânticos – surgiam os hinários trazendo riqueza poética, estética, teológica e musical.

Contudo, a ênfase demasiada no conteúdo doutrinário para a formação de pastores criou muitos teólogos, mas deixou a desejar no quesito crescimento da igreja. A preocupação excessiva em manter-se no caminho, em preservar os cânones da fé, quase transformou as instituições teológicas em monastérios e instrumentos de formação fundamentalista. Dali saiam os pastores – prontos a defender sua fé, mas pouco preparados para difundi-la de maneira relevante e contextualizada com as necessidades da sociedade.

O pastor-gerente

No entanto, como a cultura é um fator de forte influência no comportamento humano, inclusive religioso, a sociedade que vivia assentada em valores morais e éticos oriundos da herança cristã, começa a entrar numa nova fase: a produtividade. Com a Revolução Industrial, a sociedade experimenta transformações profundas em todos os campos. O apelo ao “progresso” era tão acelerado quanto o ritmo das máquinas nas fábricas, fazendo surgir novas classes sociais, novas formas de exploração, novos dilemas, doenças, epidemias, sonhos, desejos, hábitos, crenças e valores. A ênfase deixa de ser na qualidade para focar na quantidade. O sucesso não está mais ligado a questões de convicções e honra, mas a fatores utilitaristas, funcionalistas, pragmáticos.

Nesse momento a figura do pastor deixa de ser a do teólogo para tornar-se a do gerente. A fábrica ditava as normas. “Quantidade” era o alvo. Aceleração era a ordem. Aqui o ministério pastoral deixa de focar no conteúdo doutrinário para enfatizar métodos e técnicas de gerenciamento. O pastor-teólogo é rejeitado em detrimento do pastor-gerente. A ética e a preocupação em salvaguardar o “sagrado ministério” dá lugar à mentalidade competitiva do mercado. A preocupação com “quantos membros” assume o lugar da preocupação com “como” estão esses membros. A qualidade dá lugar à quantidade.

Aqui surge um movimento de crescimento de igreja com seus manuais e modelos que prometiam crescimento numérico rápido e estratosférico, fortemente pautado em princípios neoliberais, conferindo status aos seus gurus que viajavam de ponta a ponta do planeta ensinando como outras igrejas poderiam experimentar uma “explosão numérica”. As franquias capitalistas, uniformizantes e massificadoras como Mc’Donalds e outras tornam-se o modelo de gestão a ser reproduzido pela igreja. Marketing e Propaganda, Administração de Empresas e outros cursos técnicos agora fazem parte do novo currículo pastoral, deixando de lado o conteúdo teológico.

Como um efeito dominó, todos os setores da igreja são influenciados pela nova ótica. Juntamente com a proliferação das ONGS’s, organizações paraeclesiásricas com pessoal especializado emergem visando auxiliar e até mesmo substituir papéis que até então eram próprios da igreja – surgem as agências missionárias, os institutos de pesquisas e assessoria às novas igrejas que nasciam, prometendo turbinar o ministério, dando-lhes ferramentas eficazes para o crescimento. A própria teologia é afetada. O exemplo é o campo na pneumatologia (doutrina do Espírito Santo) que deixa de enfatizar o Espírito Santo como o “auterego” de Cristo, transformando e santificando o crente, para demonstrá-lo como o agente principal para o crescimento da igreja. A nossa hermenêutica tenta extrair da Bíblia, mais precisamente do livro de Atos, princípios infalíveis de crescimento. O estilo de vida dos primeiros cristãos passa a ser observado, não mais do ponto de vista de uma vida transformada pelo poder da nova vida em Cristo, mas como um comportamento a ser imitado pelas novas gerações para que se “acrescentasse o número daqueles que seriam salvos”.

A música dirige-se mais às pessoas, tentando tocá-las e falar-lhes ao coração, distanciando-se cada vez mais do seu caráter transcendental, dirigida a Deus. Vamos ao extremo de torná-la um produto mercadológico posto nas prateleiras do mercado fonográfico. São incorporados ritmos e estilos até então vistos como seculares ou demoníacos. A pregação, sintonizada com técnicas de psicologia e princípios motivacionais, propõe levantar o ânimo de um povo cansado e com problemas de baixa autoestima e financeiros, advindos da exploração econômica do Capitalismo. Cada vez mais as classes de ensino bíblico são esvaziadas e os seminários quase que lançados à obsolecência, sucateados.

O super-pastor

Mas o mundo, que não para, volta os seus olhos para os novos personagens: os super-heróis. Uma explosão de figuras dotadas de superpoderes começa a assumir o novo senário mundial. As sociedades depositam nos superpolíticos, supercientistas, superartistas e super-religiosos a esperança para o seu cansaço. Num mundo vazio e inseguro, as pessoas projetam suas carências nos “astros” que frequentemente ocupam largo tempo na mídia. Ela mesma cria seus próprios heróis, seus popstars. Neste ponto, o pastor busca um lugar de evidência onde possa ser ouvido, ser respeitado.

Temos aqui, portanto, uma nova mudança de paradigma pastoral: não é mais o pastor-teólogo e nem o pastor-gerente, mas o super-pastor. Um ser criado pela sociedade do espetáculo, pelo clamor das massas desesperadas por esperança surge nos púlpitos dos auditórios. Arrebatando multidões, os super-pastores demonstram uma imagem de alguém infalível, poderoso, altivo, carismático, coisa somente para uns poucos! Ele se torna a estrela do show e quando isso não acontece, vê-se fracassado e frustrado. Recorrendo a técnicas da autoajuda e da psicologia, o novo pastor agora precisa satisfazer as expectativas das multidões que esperam dele nem que seja uma gota de suor, uma toalha, quem sabe os mais agraciados conseguem uma imposição de mãos! Esse super-pastor é infalível – não fica doente, não peca, tem a família mais feliz de todas, sua vida pessoal é invejável.

Mas esse bezerro de ouro criado pela cultura do espetáculo começa a dar sinais de exaustão, de humanidade. Surgem os escândalos de ordem moral e ética. A consequência é o enfraquecimento e a ridicularização da imagem pastoral que, para sustentar sua “dominação carismática”, recorre à manipulação descarada, aprofundando ainda mais a crise do super-herói decadente.

O novo pastor

Enfim, poderia continuar descrevendo as novas descobertas e problemáticas à luz dessas mudanças, mas não posso perder o meu foco neste artigo: Se antes o pastor-teólogo era o paradigma e com as mudanças geradas pela nova sociedade capitalista emerge o pastor-gerente, que dá lugar ao super-pastor, diante do novo quadro mundial onde uma sociedade pós-moderna desafia tudo o que aprendemos, que tipo de pastor o mundo precisa? Como o pastor se encaixa diante da nova realidade?

Na sociedade onde os absolutos deram lugar aos relativos, onde os valores humanistas permeiam todos os campos do pensamento, onde a fé é desafiada pelo ceticismo, onde o materialismo dá lugar à espiritualidade, onde o poder da mídia dita as regras, onde as instituições até então consideradas sagradas entram em erosão, onde a política é desacreditada e vista com tédio, onde a economia está a mercê de um colapso, onde novas teses e descobertas científicas suscitam novos debates…, o que se demanda do novo pastor? Qual é o modelo que corresponderá às novas demandas? O teólogo? O gerente? O super?

Na verdade quero mais provocar do que responder, até porque, na verdade, a nova sociedade está em construção exigindo novas posturas dos seus atores e mais tempo para reflexão. O novo pastor se insere nesse contexto confuso, complexo, denso, enigmático, até paranoico como uma figura extremamente importante, pois em todos os momentos constituiu-se como um agente estratégico, constituindo-se numa espécie de elo entre vários “mundos”.

Entendo que o pastor não pode estar confinado numa redoma sagrada hermeticamente fechada para o mundo e nem expor-se sem qualquer critério às influências “de fora”. Aliás, precisamos rediscutir o que é “estar fora” e “estar dentro”, pois se olharmos mais atentamente para Jesus, observaremos que nele não existia essa mentalidade dualista. Precisamos aprender o equilíbrio de não estarmos tão dentro ou tão fora que acabamos nos alienando dos contextos ao nosso redor. O novo pastor deve agregar a figura do teólogo, do líder e ser um referencial onde se possa perceber a grandeza divina na pequenez humana. A sociedade que temos hoje é complexa em sua natureza e eclética em sua formação. Isso significa que, mais do que sermos meros transmissores de mensagens, precisamos interpretá-la à luz dos novos dilemas.

O mundo que temos hoje não aceita mais respostas simplistas e fechadas, ele requer uma visão holística e integrada da vida como um todo. O novo pastor não pode fechar-se unicamente na teologia, achando que as ciências ameaçam a fé. Não pode, também, menosprezar e nem banalizar seu ministério sagrado, como chamado e enviado por vocação divina meramente à figura de um gerente de empresa. Ele precisa ser um facilitador para um mundo que busca respostas, mesmo que não tenha todas (e nem precisa ter!). Não pode fechar-se em fundamentalismos e nem vender-se aos ditames do secularismo.

O poder do novo pastor não estar em ditar as regras, mas em influenciar, em inspirar o novo homem, fazendo-o olhar para além da mediocridade do materialismo. Ele não deve ser um super-herói, mas um ser humano compassivo, observador, cuidadoso. Deve ser seguro em Deus ao mesmo tempo em que não se torne refém de uma imagem divinizada que ele mesmo cria de si mesmo. Deve ser simples, ao mesmo tempo em que não se torne medíocre. Ele não deve ser tudo, saber de tudo, mas deve ser um apascentador, um agregador em tempos de fragmentação.

O novo pastor deve despir-se das fantasias, dos disfarces criados pela cultura do espetáculo. Deve mostrar que, apesar de suas próprias feridas, há um Deus que cuida, que ama, que dirige. O pastor sangra, cansa, duvida, mas nessa figura tão frágil quanto qualquer outra, encontra-se alguém que pode dizer: “é por aqui pessoal!”, ou : “por aqui não!” – não por deliberação ou arbitrariedade própria, mas porque passou por esses caminhos e experimentou as agruras da vida.

O novo pastor não pode ser águem conformado, mas indignado. Ele não pode reproduzir as mesmas dominações que já existem no mundo, mas deve propor uma quebra com as mesmas, lutando por mudanças radicais propostas no Evangelho de Jesus Cristo.

O novo pastor jamais deve perder o seu modelo único: o Bom Pastor Jesus. A questão não é como a sociedade gostaria que fôssemos, mas como Jesus se revelaria num tempo de quase absoluta falta de esperança? O novo pastor é aquele não permite a indiferença, alienação e a naturalização tão presentes em nossos dias entorpecerem o seu coração, mas assim como o Bom Pastor, é movido por íntima compaixão ao observar as multidões exaustas e aflitas como ovelhas sem pastor, que se dirige a elas para servi-las, para apascentá-las, ministrando-lhes nas necessidades (Mateus 9.36).

O novo pastor é alguém sintonizado com o mundo, movido por compaixão e comprometido em manifestar o amor de Cristo.

É isso aí!

Marcos Arrais

1 Comments For This Post

  1. Joel Says:

    Muuinto bom seu artigo Marcos, me ajudou muito em um trabalho sobre pastores tradicionais em um cenário mutante.. muito obrigado! que o Senhor continue te abençoando.

Leave a Reply

Advertise Here
Advertise Here