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A Sabedoria de Não Saber

Posted on 10 maio 2012 by admin

“Eu não sei!”. Já parou pra pensar como as coisas seriam mais fáceis de admitíssemos nossa incompetência frente aos inúmeros enigmas da vida? É do famoso filósofo grego, Sócrates, a célebre frase “só sei que nada sei”. Nós, cristãos, tendemos a repudiar a sabedoria fora da Bíblia como se ela fosse um monopólio daqueles que professam a fé evangélica (recomendo a leitura do livro: “O fator Melquisedeque” de Don Richardson). No entanto a sabedoria divina extrapola qualquer profissão de fé religiosa ou filosofia humana. Sócrates chegou à conclusão que a sabedoria ultrapassa nossos limites e não temos como compreendê-la em sua plenitude. Há um teto! Há um limite para a nossa compreensão.

Tentar explicar o inexplicável tem nos levado a dois caminhos opostos: Um deles é cometer a arrogância de aventurar-nos em aclarar questões misteriosas, entrando na mediocridade do simplismo, dando explicações simplórias a questões complexas; o outro caminho é fugir do desafio do saber, lançando-nos no abismo obscuro da ignorância e da estupidez. Acredito que a solução sempre está no bom e velho equilíbrio: nunca desistir de buscar a verdade, por mais que ela contrarie os nossos preconceitos; e reconhecermos quando a nossa compreensão ínfima esbarra nos limites da nossa ignorância.

Tenho uma criança em casa que está na fase dos “por quês?”. Em algumas ocasiões respondo que “não sei” por que quero me livrar logo dela para continuar fazendo as coisas de “adulto”, mas às vezes o digo por que reconheço a minha incapacidade diante das perguntas de uma criança. É difícil de admitir isso a um menino de sete anos, mas o herói dele, grande parte das vezes, não sabe!

Foi Salomão, o sábio rei de Israel, que no seu livro Eclesiastes disse:

“Eu disse a mim mesmo: ‘tenho mais conhecimento e sou mais sábio que qualquer um antes de mim em Jerusalém. Acumulei sabedoria e conhecimento’. A conclusão a que cheguei foi: esforçar-me para obter sabedoria e conhecimento produz um vazio – é como nadar contra a maré. Quanto mais se sabe, maior é a responsabilidade; quanto mais se aprende, maior é o sofrimento” [cap. 2; versos 16 ao 18 – tradução The Message].

Claro que Salomão não estava em um bom momento da sua vida. Nem todo o pensamento expresso em Eclesiastes traduz o axioma cristão. Ali estava um poeta em seus devaneios, frustrações e dissabores. Entretanto, é inegável a sabedoria ali expressada. No final de do seu livro, o Pregador (como assim ele é descrito em Eclesiastes) conclui, dizendo:

“Para finalizar, a conclusão de tudo é a seguinte: ‘Tema a Deus e faça tudo que ele mandar’” [cap. 12; verso 13].

“Tema a Deus”! Reconheçamos que Ele é infinito, inescrutável, perfeito, cabendo a nós, meras criaturas mortais e finitas, reconhecermos a grandeza de quem Ele é e do que Ele criou, adorando-O e entregando-nos a Ele. Não sou determinista, só reconheço o meu lugar nessa parte da existência chamada mundo.

“Eternidade”. Essa palavra nos humilha, pois nos coloca frente a uma dimensão que ultrapassa qualquer conhecimento humano acumulado em toda a sua história. As ciências e o tempo são insignificantes diante dessa expressão. Saber que “não sabemos” nos traz descanso, pois nos tira da angústia de termos que explicar o inexplicável, de saber o inescrutável, de entendermos o inatingível.

A vida é cheia de contradições e enigmas. Se tentarmos entender tudo, chegaríamos à insanidade. Há coisas que podemos mudar, outras, conviver, aceitar. Só não vale ficar dando respostas simplistas ou fingir que não existem. A vida é mais poderosa que nós. Tentar controlá-la seria no mínimo arrogância e ignorância. Controlar Deus, então, loucura! Como dizia Agostinho (para ninguém acusar-me de que não citei nenhum pensador cristão): “Tornei-me um enigma para mim mesmo”. Enquanto isso, vamos vivendo as dialéticas da existência humana e tentando melhorar.

Não estou fazendo uma apologia à ignorância, só não compartilho com a arrogância do querer tubo saber. Com essa compreensão, fico em paz e me coloco no meu lugar.

Encerro meu devaneio filosófico citando o que chamo de “tributo à sabedoria”, escrito por São Paulo:

Vocês, por acaso, já viram algo que se compare à graça generosa de Deus ou à sua profunda sabedoria? É algo acima de toda compreensão, que jamais entendemos.
Há alguém que possa explicar Deus?
Alguém inteligente o bastante para lhe dizer o que fazer?
Alguém que tenha feito a ele um grande favor ou a quem Deus tenha pedido Conselho?
Tudo dele procede;
Tudo acontece por intermédio dele;
Tudo termina nele.
Glória para sempre! Louvor para sempre!
Amém. Amém. Amém.
[Romanos cap. 11; versos 33 ao 36]

Marcos Arrais

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