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McDonaldização Da Igreja

Posted on 14 dezembro 2011 by admin

Para compreendermos um pouco acerca dessa mudança de natureza promovida pela mentalidade neoliberal no âmbito eclesiástico, farei uma analogia entre as funções atribuídas à igreja atual e a lógica que regula o funcionamento dos fast foods nas modernas sociedades de mercado. Usarei, portanto, o termo mcdonaldização, para avançarmos na compreensão desse processo.

Os procedimentos de mcdonaldização têm sido usados por alguns autores para referir-se à transferência dos princípios que regulam a lógica de funcionamento dos fast foods a espaços institucionais mais amplos na vida social do capitalismo contemporâneo. Nesse processo a igreja é pensada e estruturada sob o modelo de certos padrões produtivistas empresariais, servindo como uma espécie de empresa produtora de serviços espirituais. Vejamos alguns paralelos:

1. O primeiro ponto básico comum a essa visão é a mercadoria produzida de maneira rápida e de acordo com certas e rigorosas normas de controle da eficiência e da produtividade. Isso se evidencia nas promessas de milagres que a todo momento são anunciadas por evangelistas da grande mídia. Um imediatismo doentio emerge dessa mentalidade promíscua que tira Deus do seu lugar de Senhor para o de vassalo, colocando o homem como centro do universo.

2. Depois temos o discurso de que a eficiência administrativa resultará, como fez a essa rede de lanches, num alcance cada vez maior de nichos ou segmentos, dando mais alavancagem competitiva. Mcdonaldizar a igreja, nesse sentido, pressupõe pensá-la como uma instituição flexível que deve reagir aos estímulos emitidos por um mercado altamente competitivo e exigente.

Em tempos de pluralismos, a igreja vê-se competindo com “outras opções” de consumo. Isso não se dirige apenas a outras religiões e seitas, mas à novela das oito, à final do brasileirão, à indústria cultural e de entretenimento etc. Nessa gama de alternativas, ela tenta mostrar vantagens aos consumidores no mesmo nível das propostas apresentadas por seus “competidores”. Deixamos de ser uma contracultura, com propostas antissistema, para sermos colaboradores desse, reforçando as relações de dominação existentes.

Na perspectiva dos homens de negócios, nesse novo modelo de sociedade, a igreja deve ter por função a transmissão de certas competências e habilidades necessárias para que as pessoas atuem competitivamente  num mercado de trabalho altamente seletivo e cada vez mais restrito. Fica de fora, então, a “velha” mensagem da cruz, dando espaço para o discurso de autoajuda embasado por versículos bíblicos. O modelo de cristão carregando a vergonha da cruz como contradição ao arrogante homem do mundo, agora dá lugar àquele que tenta suplantá-lo com uma soberba moralista e religiosa tão desprezível quando a desse século  – é o orgulho religioso contra o orgulho do mundo. No fim é a mesma coisa.

O pior é quando essa competitividade assume a forma de disputa interna como ocorre na rede McDonalds – e que é adotada como um modelo a ser seguido, justificando, assim, um sistema de incentivos que promove uma dura e implacável competição interna. Assim, as empresas estimulam um clima de disputas entre os trabalhadores bem como a difusão de um sistema de prêmios e castigos dirigidos a motivar o “pertencimento” e a adesão incondicional à instituição. Quem mais produz mais ganha.

Essa mentalidade acaba instigando a meritocracia na igreja e a promoção pessoal, com vistas a propagandear a mão esquerda o que fez a direita – o contrário do que nos ensinou Jesus em Mt 6.3. Dessa forma, o ministério deve ser pensado como um grande campeonato.

Para que toda ação se justifique como legítima, surgem aqueles que formularão as leis, as regras, as normas – aqueles que sancionarão tais sistemas de pensamentos. Assim surgem os novos “Teólogos da Qualidade Total”, propagando uma espécie de “Teologia fast food” com uma infinidade de livros e seminários de estratégias que “ensinam” um caminho mais curto para o prometido sucesso.

3. O processo de mcdonaldização da igreja também tem seu efeito no campo do currículo e na formação dos obreiros. Há uma grande similaridade entre o mecanismo de planejamento dos cardápios nesse tipo de negócio e as estratégias tecnicistas modernas. Assim os métodos de formação ministerial vão se configurando como pacotes fechados de treinamento, definidos muitas vezes por equipes de técnicos, experts e até consultores de empresas. Assim, buscam-se sistemas de treinamento rápido com grande poder disciplinador e altamente centralizado em seu planejamento e aplicação.

A Hamburguer University de Mcdonald’s em Chicago e sua competidora, a Harvard dos preparadores de batatas fritas, a Burg King University, na perspectiva dos homens de negócios, constituem-se respeitados modelos para a liderança. Formar um obreiro não costuma ser considerada uma tarefa mais complexa do que a de treinar um preparador de Hamburguer!

4. Por último, a mcdonaldização do campo eclesiástico se expressa através das cada vez mais frequentes formas de terceirização, tão características de um regime neoliberal. Vejamos. Com vistas a uma alta produtividade e lucro, uma loja do Mcdonald’s é sempre um espaço de integração de diversos trabalhos parciais realizados em todas as unidades produtivas. De certa forma o Big Mac é a síntese “dialética” de uma série de contribuições terceirizadas: por um lado, existe quem produz a carne, quem fabrica o pão, quem fornece o katchup e, por outro, quem cultiva os pepinos. Todos os insumos são fornecidos por um número variável de produtores. No campo religioso, constrói-se, assim, uma versão toyotizada de ministério, onde, longe de ser uma relação de interdependência orgânica, torna-se uma serialização de funções ministeriais desconectadas do Cabeça, levando-nos a um tipo de alienação ministerial que nos tira o foco do proposto em Efésios 4.10-13 (veja o meu artigo: Especialização e “Linha de Produção” Ministerial).

O problema é que se formos usar as mesmas armas na expansão do Evangelho, poderemos chegar à conclusão que com o tempo de experiência e com a agressividade já bem aceita por ser uma empresa capitalista que visa o lucro e com as vantagens competitivas dos fast foods, em muitos de nossos países, os hambúrgueres têm melhor futuro que a igreja (apenas especulando)!

Não quero dizer que excluir alguns desses processos do campo ministerial seria a solução, mas não podemos nos lançar cegamente esquecendo-nos do caráter espiritual que envolve a obra de Deus. Os padrões lançados por Jesus são opostamente diferentes dos utilizado no mundo. O que não podemos é promover uma espécie de “darwinismo eclesiástico”, onde os “melhores” triunfam e os “piores” ficam para trás.

Marcos Arrais

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Inspirado em “Neoliberalismo e educação: maual do usuário” de Pablo Gentili (Livro: “Escola S.A.”)

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