O Papel da Religião no Mundo Contemporâneo

Posted on 25 maio 2011 by admin

Achei de grande relevância a entrevista que Leonardo Boff, filósofo e expoente da Teologia da Libertação deu à revista SOCIOLOGIA. Sei que os leitores do meu blog são bastante criteriosos, por isso os desafio a lerem e refletirem nessa entrevista. Boff fala sobre o PAPEL DA RELIGIÃO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO:

Expoente da Teologia da Libertação, Leonardo Boff analisa nesta entrevista exclusiva temas como o papel da religião no mundo contemporâneo e a necessidade de uma nova consciência da sociedade no uso dos recursos naturais

O teólogo alemão Ernst Troeltsch considera que as Igrejas se caracterizam por possuir estreita ligação com o Estado e as classes dominantes , tornando- se, por esse motivo, parte da ordem social vigente. Sendo assim, a ruptura com a ordem econômica e política estabelecida encontra nessas instituições uma reação contrária. É possível afirmar que a Teologia da Libertação é o antagonismo desta caracterização observada por Troeltsch?

A vasta produção literária de Leonardo Boff (quase uma centena de livros publicados) o coloca entre os grandes intelectuais do Brasil. É um militante ativo, e suas posições progressistas comumente entram em choque com os setores mais conservadores da sociedade, em especial os ligados à Igreja Católica. Ao tratar da questão religiosa, o professor Leonardo Boff sugere que as igrejas devem renunciar a pretensão de ser a única portadora da verdade e, por isso, sentir-se superior e fora da sociedade. Reconhece que elas têm direito a expor sua opinião, mas sem qualquer imposição às pessoas. Aponta que a grande maioria das instituições religiosas se autofinalizam porque se preocupam prioritariamente em conservar seu lugar social e poder.

Crítico do modelo produtivista/consumista que marca a sociedade contemporânea, Leonardo Boff afirma que a Terra e seus recursos naturais foram transformados em meros objetos de uso e de exploração a ponto de colocar em risco as condições de vida em todo o planeta. Diante dessa perspectiva, nesta entrevista ele faz apontamentos e ponderações sobre o papel das religiões neste século.

Troeltsch escreveu a partir da situação social de fato de seu tempo. As Igrejas participavam do bloco histórico da hegemonia/ dominação social das classes patronais. A Teologia da Libertação possui outra base social, os pobres e oprimidos, em sua grande maioria cristãos. A estratégia era e ainda é fazer com que este capital religioso popular ganhe outra função social, de resistência, protestação e libertação, como consequência da própria natureza da fé cristã. A herança libertária do Jesus histórico, que morreu executado na cruz e não de velho na cama, servia e serve de referência para legitimação dessa posição e também de afirmação face à Igreja tradicional, vinculada aos poderes dominantes. Curiosamente, no seu tempo, Jesus se opunha ao Império de César anunciando o Reinado de Deus. Hoje, a Igreja hierárquica se compõe com o Império pagando um alto preço, o de perder os pobres e o de ter que continuamente espiritualizar a mensagem libertária de Jesus.

Na sociedade moderna, afirma-se que o Estado deve ser laico. Neste contexto, qual deve ser o papel político das Igrejas?

A Igreja não escolhe um mundo para o qual quer ser Igreja. Ela tem que aceitar o mundo que está aí, no caso, laico e pluralista, conquista da modernidade democrática. Ela deve se inscrever como uma das forças ao lado e junto de outras na sociedade. Deve renunciar a pretensão de ser a única portadora da verdade e, por isso, sentir-se superior e fora da sociedade. Isso seria colocar-se fora do campo democrático, como o espaço dentro do qual todos se encontram em pé de igualdade e juntos procuram construir o bem de todos, mesmo dentro das diferenças e das tensões. Ela tem direito de expor sua opinião, como qualquer outro grupo, mas é ilegítimo impô-la aos demais.

De uma forma geral, as grandes religiões estão bem sintonizadas com os anseios dos seres humanos do século 21?

A grande maioria das religiões e igrejas se autofinalizam. Preocupam-se em conservar seu lugar social e seu poder. São, de certa forma, autistas, pois se constroem para dentro e transformam-se geralmente num bastião de conservadorismo e de patriarcalismo. O correto é elas entenderem-se como instância de animação da dimensão religiosa dos seres humanos e colocarem-se a serviço de causas universais, como a da dignidade humana, dos direitos de cada pessoa, do respeito face a cada ser por ter valor intrínseco, empenhar-se pela justiça social, defender a causa dos oprimidos, cuidar da criação e alimentar o princípio da esperança que habita cada ser e anima cada sociedade. Na medida em que assumem causas universais, elas mesmas se fazem universais. No caso das igrejas cristãs, cumpre fazer que a herança sagrada de Jesus seja traduzida na linguagem compreensível ao homem da rua e ao mesmo tempo se articule com os vários saberes críticos, mostrando as boas razões de sua proposta como contribuição, ao lado e junto de outras tradições espirituais, para a humanização da humanidade. O projeto de Jesus não reside em fundar uma nova religião, mas de propor um homem novo e uma mulher nova. Neste sentido, as grandes religiões não estão atendendo às demandas espirituais do mundo contemporâneo. Quase todas sofrem da doença do fundamentalismo. Por isso se explica a efervescência de novos caminhos espirituais, do esoterismo e de outras manifestações religiosas que vêm preencher o vazio deixado pelas grandes tradições espirituais que não conseguem se aggiornar nem mergulhar em sua própria fonte originária, donde viriam, seguramente, uma renovação e uma nova linguagem.
“A grande maioria das religiões e igrejas se autofinalizam. Preocupam-se em conservar seu lugar social e seu poder. São, de certa forma, autistas, pois se constroem para dentro e transformam-se geralmente num bastião de conservadorismo e de patriarcalismo”

A Bíblia, no livro de Gênesis, cita que os humanos devem encher toda a terra, sujeitá-la e dominar os demais seres. A profunda crise ambiental que assola todas as formas de vida na Terra, provocada sobretudo pela ação humana, exige um novo olhar sobre esses conceitos de sujeição e dominação que a Bíblia traz?

As Igrejas são parte da crise ecológica e não sua solução. Interpretaram ao pé da letra os textos que mostram a atitude adâmica de superioridade e de dominação do ser humano sobre a Terra e sobre todos os seres. Isso é claro no primeiro capítulo do Gênesis. A utilização acrítica destes textos legitimou a relação de depredação e de dominação da natureza, já presente na proposta dos pais fundadores da modernidade como Descartes e Francis Bacon*. Hoje, elas devem fazer uma autocrítica e interpretar sua missão a partir do segundo capítulo do Gênesis no qual se declara que a missão do ser humano é o de cuidador do jardim do Éden, vale dizer, de todo o criado. Ademais, ela deve resgatar uma teologia correta da criação que vê a natureza como criação de Deus, lugar onde o próprio Deus se revela e instaura o ser humano como o seu guardião e continuador de uma obra que Ele deixou incompleta para que, com criatividade, pudesse ser completada pela ação humana. Hoje, fazendo um balanço sumário da atuação da espécie humana com referência à natureza, devemos concluir que ela se mostrou mais como satã da Terra do que seu anjo bom. Afetamos as bases físico-químicas da sustentação da vida. Fala-se até que o ser humano se transformou numa força geofísica destruidora, inaugurando uma nova era geológica, o antropoceno, expressão cunhada pelo químico holandês, portador de prêmio Nobel de 1995, Paul J. Crutzen. Os fatos justificam essa nomenclatura.

O que é consciência planetária e como ela está emergindo nas religiões ?

A consciência planetária é o efeito do processo histórico-social da humanidade que se descobre como espécie que ocupa
a única Casa Comum, o planeta Terra. Dá-se conta de que entre Terra e Humanidade não há separação. Possuem a mesma origem e o mesmo destino. São feitos dos mesmos elementos físico-químicos que maduraram no interior das grandes estrelas vermelhas de bilhões de anos atrás. Todos somos feitos de pó estelar. É a visão que os astronautas nos transmitiram: a unidade Terra-Humanidade. Daí nasce o sentimento de pertença e de responsabilidade pela sua preservação, de resgate de sua vitalidade ferida e de sua integridade ameaçada. Nós precisamos da Terra para viver. A Terra não precisa de nós. Ela pode continuar sem nós. Por causa da unidade Terra-Humanidade podemos dizer que somos Terra que sente, pensa, ama e cuida. Por isso, seria grande perda o eventual desaparecimento da espécie humana: é por ela que o universo vê a si mesmo, se auto-completa e chega à consciência de sua complexidade e grandeur.

“A Igreja não escolhe um mundo para o qual quer ser Igreja. Ela tem que aceitar o mundo que está aí, no caso, laico e pluralista, conquista da modernidade democrática. Ela deve se inscrever como uma das forças ao lado e junto de outras na sociedade. Deve renunciar a pretensão de ser a única portadora da verdade”

O sociólogo e teólogo Peter Berger e o sociólogo Thomas Luckmann apontam que a sociedade contemporânea vive uma crise de sentido. Podem as religiões , ao atuar como instituições promotoras de sentido, influenciar e despertar um senso ecológico e uma lógica biocêntrica nas pessoas?

Há uma crise generalizada de sentido porque o “deus” da modernidade – o progresso – mostrou-se, nos últimos tempos, hostil à vida, uma ameaça para o equilíbrio da Terra e para a persistência da espécie humana sobre este planeta. Os países centrais que projetaram esse “deus” se deram conta de que ele morreu ou que, levado avante, pode comprometer o futuro de todos. Daí o sentimento de depressão e frustração que assola as culturas centrais. Morreu um “deus” e não se encontrou nenhum para substituí-lo. Normalmente, as religiões são as portadoras naturais de sonhos salvacionistas, de utopias de total redenção, de uma esperança que nunca morre. Por isso, já dizia Ernst Bloch*, onde há religião há esperança. Mas as religiões e Igrejas são fontes de novas utopias se elas se desfossilizarem, se beberem de sua fonte originária e se colocarem efetivamente a serviço da chama sagrada que arde em cada pessoa, em termos de um desejo infinito, de uma busca de um sentido terminal da vida e do universo, pulsões que sempre irrompem na vida humana e nas várias etapas da vida. O ser humano não vive apenas do capital material, mas se nutre também do capital espiritual, na modernidade rebaixado, mas hoje despertando de forma singular. Este capital espiritual não se exaure como o material, pois não há limite para a solidariedade, para o amor, para a criação artística, para o conhecimento do real e para a viagem rumo ao próprio coração. Aí o ser humano emerge como um projeto infinito, sendo impossível enquadrá-lo em alguma definição, ideologia ou formação social. Ele desborda por todos os lados.

Max Weber observa que a racionalidade é uma das marcas da modernidade. O mercado capitalista pode ser apontado como uma expressão máxima dessa racionalidade. A questão é: o ser humano tornou o mercado sagrado, exaltando a lógica produtivista/consumista ao extremo. Como as religiões enfrentam o desafio de incutir nas pesso as que a vida planetária é mais importante que o consumo, e que o próprio ato de consumir excessivamente está sendo altamente nocivo ao planeta?

As religiões sempre pregaram a sobriedade, a simplicidade voluntária, a compaixão para com quem sofre e o amor incondicional. Elas ensinaram a veneração e o respeito diante de cada ser, visto como revelação de Deus ou portador de dimensões sagradas. Esses valores são fundamentais para um novo ensaio civilizatório. Hoje nos damos conta da falsidade de uma compreensão do mundo, da Terra e da natureza que foram feitas meros objetos de uso e de exploração a ponto de colocarem em risco as condições de vida mais gerais. As crises clássicas afetavam as relações histórico-sociais. A atual afeta as bases da nossa vida humana e de toda a comunidade de vida, a nossa conditio essendi. Por isso, ela é grave e exige a corresponsabilidade de todos, pois, caso contrário, podemos ir ao encontro da escuridão. Estimo que a passagem de um paradigma de civilização para outro se faça a partir de uma nova experiência do Ser, do encontro de um novo sentido de vida, numa palavra, de uma nova espiritualidade que cria um horizonte de sentido capaz de animar as sociedades para um novo modo de ser e de se relacionar. Os eixos estruturadores do novo se encontram em valores ligados à vida, ao cuidado, à cooperação, ao respeito e à total abertura do ser humano ao Todo. Vida, Humanidade e Terra serão os novos e obscuros objetos do desejo humano, pois neles vai encontrar o que se precisa para viver e para dar rumo à existência.

“Há famintos porque tudo virou mercadoria, a água, a vida e os meios de vida como os alimentos. E o mercado é implacável: não conhece solidariedade, apenas competição. Nesta lógica, famintos crescerão até o dia em que não aceitarão mais o veredito de morte sobre suas vidas e se rebelarão, criando cenários internacionais dramáticos”

A produção de alimentos tem apresentado crescimento ano após ano devido ao desenvolvimento tecnológico. Por outro lado, um estudo recente do Instituto Internacional de Investigação sobre Políticas Alimentares aponta que um bilhão de pessoas sofrem de desnutrição no planeta. É possível afirmar que mesmo aquilo que sabemos produzir não aprendemos a distribuir?

Não há falta de alimentos na humanidade. Depois que os alimentos entraram na bolsa como commodities, transformaram- se em objetos de troca e não de uso. Os alimentos estão aí. Mas as pessoas não têm renda suficiente para aceder a eles e atenderem suas necessidades. Há famintos porque tudo virou mercadoria, a água, a vida e os meios de vida como os alimentos. E o mercado é implacável: não conhece solidariedade, apenas competição. Nesta lógica, famintos crescerão até o dia em que não aceitarão mais o veredito de morte sobre suas vidas e se rebelarão, criando cenários internacionais dramáticos.

A população mundial ultrapassa a marca de 6 bilhões. A previsão é de que até 2050 o planeta tenha entre 9 e 11 bilhões de pessoas. Isto significa maior demanda pelos escassos recursos naturais e, em especial, pela água. Dados apontam que, possivelmente, até 2025 mais de 2,7 bilhões de pessoas vão conviver com a escassez se vera de água, fonte vital de vida. Analisando este cenário é possível fazer alguma previsão otimista sobre o futuro da humanidade?

Os cenários são dramáticos. Não sou pessimista. Como dizia José Saramago, a realidade é que é péssima. Sou otimista no sentido de entender a situação atual não como uma tragédia cujo fim é fatal e destruidor, mas como uma grande crise de civilização. Toda crise, seja pessoal, seja social, acrisola, purifica, madura. O que é acidental e agregado não resiste e cai. Permanece o cerne a partir do qual se pode construir um outro envoltório com mais sustentabilidade. Qual seria então o próximo passo para a humanidade? Creio que depois do homem vem a humanidade, depois da nação vem a planetização, depois do capital material, triunfa o capital espiritual. O próximo passo, alcançado no meio de grandes riscos, é o despertar de uma nova consciência de que devemos criar centros coletivos de administração e cuidado da única Casa Comum que temos, com seus recursos escassos e superpovoada, como condição de sobrevivência e de futuro. Não acaba o mundo. Mas acaba este tipo de mundo que perdurou nos últimos séculos. Emergirá um outro tipo de mundo, planetizado, mundo da espécie humana mais solidária, com um novo contrato natural e social com a Terra, tida como a Grande Mãe a quem respeitamos e amamos e de quem recebemos tudo o que precisamos para viver. Não estaremos sozinhos, mas juntos de toda a comunidade de vida que também usa a biosfera e que foi criada pela Terra, formando aquilo que Teilhard de Chardin, já em 1933, chamava de noosfera, quer dizer, aquela sociedade que articula mentes e corações em vista de um bem comum planetário. Isso não é sonho. É uma utopia necessária, a biocivilização, nas palavras de Ignacy Sachs, a Terra da Boa Esperança. As dores que sentimos não são os estertores de um moribundo, mas dores de parto de uma nova criatura que está por nascer e que nascerá. Esta é a minha crença e esperança.

Fonte: Portal Ciência e Vida

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