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Especialização e “Linha de Produção” Ministerial

Posted on 15 abril 2011 by admin

A especialização foi outro resultado do industrialismo. A constante necessidade de produção em larga escala levou à divisão do trabalho e à consequente especialização. Agora, numa linha de produção, cada um cuidava de uma etapa da fabricação do produto. Isso otimizou a quantidade de unidades fabricadas, mas desumanizou o homem, uma vez que este não conhecia mais todas as fases de produção e resumia seu trabalho a meramente “apertar parafusos” sem saber se o que se estava construindo seria para sua própria destruição. O trabalho, fonte de realização pessoal e expressão de criatividade humana, agora se resume a intermináveis movimentos esquizofrênicos constituindo-se em numa atividade angustiante e quase enlouquecedora.

Surgem os especialistas. Pessoas experts em determinadas áreas. Detentores do conhecimento. Senhores dos segredos. Como a ciência se ampliou extraordinariamente, entendeu-se que cada um deveria especializar-se em determinadas fases da produção. Isso se estendeu a todas as áreas – na medicina, cada especialista aplicou-se a compreender uma certa área do corpo humano. No campo da tecnologia, da matemática, da física etc., todos buscavam fechar o foco naquilo que empreendiam. Essa prática protegeu os segredos de produção – na fabricação de um carro, quem cuida da mecânica, pouco conhece da elétrica. Quem só conhece uma etapa, não sabe como terminar o produto.

Sem dúvida a nossa visão de ministério foi profundamente afetada com a divisão do trabalho. Hoje vemos essa tendência no mundo eclesiástico de forma acentuada quando nos deparamos com certas reivindicações de que não podemos intervir em áreas que não nos competem. Super-enfatizamos tanto os dons e os ministérios no nível particular que delegamos a alguns “detentores da unção” a prerrogativa de assenhorear-se de determinadas áreas ministeriais.

O ministério quíntuplo (Efésios 4.11) e os dons espirituais não têm a ver com o homem, e sim com o Espírito Santo (1 Coríntios 12.4-6). Não se trata de uma “linha de produção ministerial”, mas de um organismo vivo interconectado de forma vital com a Cabeça que é Cristo. Esse organismo chamado igreja é descrito por Paulo em 1Coríontios 12 como um corpo vivo onde as partes trabalham conjuntamente sem perder a noção de que fazem parte do mesmo corpo. Alienação ministerial se dá quando nos isolamos em nossos próprios ministérios, esquecendo-nos que não há auto-suficiencia. Assim perdemos a noção do todo e consequentemente o senso de propósito que é refletir Jesus e Seu caráter e Missão.

A terceirização de determinados serviços na igreja nos mostra essa mentalidade. Muitos são os ministérios que “especializaram-se” na libertação, na cura , no governo, em missões, na profecia, etc. Não vejo erro nenhum quando procuramos nos aprimorar na unção que o Espírito Santo nos confiou – isso é bíblico, inclusive. O problema surge de duas formas: primeiro, quando a igreja descansa na busca de um ministério quíntuplo, onde as unções fluem no Corpo para o suprimento da obra, outorgando a um grupo seleto de “especialistas” ou experts a responsabilidade de fazê-lo. Em segundo lugar, o problema se agrava quando esse grupo sente-se detentor do direito de ministrar naquela área, monopolizando o ministério (Leia o meu artigo: “Cristianismo e Cia Ltda”). Em 1Coríntios 12, Paulo fala sobre os “dons” do Espírito Santo, mas ao que parece muitos entendem que são “donOs” do Espírito Santo!

Em 2 Timóteo 3.17, Paulo admoesta seu filho na fé, Timóteo, sobre a necessidade de estarmos prontos para suprirmos as necessidades do Corpo:  “Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra”.  Chegamos a tal ponto que muitos se recusam a expulsarem demônios só porque “não fizeram o curso de libertação” ou porque não fazem parte de tal ministério. Alguns deixam para uma “elite” de intercessores a tarefa de colocar-se na brecha.

Na grande comissão descrita em Marcos 16 e Mateus 28, Jesus não diz que alguns fariam determinadas tarefas, enquanto que outros se ocupariam com outras, mas os discípulos, enviados debaixo de Sua autoridade, dariam testemunho do poder do Evangelho.

Eu temo os “especialistas do Evangelho”, porque isso irá nos restringir cada vez mais a certas práticas ministeriais e nos lançará a um isolamento no cumprimento da missão. Sei que existe a questão da interdependência que há no corpo, mas essa interdependência não pode tornar-se exclusividade. Devemos buscar operar na esfera a que Deus nos confiou, mas não podemos negligenciar nossas responsabilidades e transferir para terceiros como se não fosse da nossa competência.

Portanto, queridos irmãos, defendo a solidariedade sem exclusividade.

Marcos Arrais

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1 Comments For This Post

  1. Léia Says:

    Realmente a “especialização” afetou e afeta a igreja. Eu já ouvi pessoas dizerem :” ah! vc precisa ir em tal igreja, lá o poder de Deus é grande, ninguém vê o poder de Deus como lá, diferente de tal igreja que é mais para libertação”. Triste pensar que as pessoas já enchergam a igreja assim “compartimentada”; quando na verdade alguém deveria dizer : “Fulano tem uma célula que é uma benção! Lá tem cura, libertação… poder de Deus mesmo! E diz que todas as células da igreja dele são assim”. Deveria ser assim…

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