Categorized | Artigos

Cristianismo e Cia Ltda

Posted on 12 outubro 2010 by admin

Vivemos na era das instituições. Com o crescimento populacional, nossa sociedade precisou se organizar a fim de atender as demandas cada vez maiores. As instituições ocupam um importante papel em nossos dias, realizando suas funções quer sejam de ordem humanitária, financeira, governamental etc. Uma instituição é uma organização ou mecanismo social que controla o funcionamento da sociedade e dos indivíduos.
Gostaria de abordar esse assunto do ponto de vista espiritual no que diz respeito à nossa vida cristã e ao universo que gira em torno dessa área.

Tenho observado que essa mentalidade institucional tem influenciado aspectos de nossas vidas espirituais que me deixam no mínimo apreensivo. Quando olhamos para o mundo eclesiástico, por exemplo, vemos claramente a realidade da institucionalização. Uma igreja, ou seja, “um grupo de pessoas que se reúne regularmente em um determinado lugar” (definição comumente aceita), deve, obrigatoriamente, buscar diante dos órgãos competentes através de mecanismos legais os meios de organizar-se diante da sociedade, o que implica obrigatoriamente dar um nome (razão social), ter um número de registro (CNPJ), fazer um estatuto, eleger uma diretoria, abrir uma conta bancária etc. Daí nasce uma “instituição filantrópica sem fins lucrativos” enquadrada em determinadas leis do país que lhes protegem e lhes cobram prestação de contas.

Até aí, normal! Sabemos que a igreja não é um segmento obsoleto, sem história e fundamentos, mas uma instituição de vital relevância para a sobrevivência da sociedade, principalmente no que diz respeito ao papel ético, moral e filantrópico. A igreja deve sim, como Corpo de Cristo, manifestar-se ao mundo e ser vista por meio de uma identidade que se expressa em sua missão nessa terra. Aqui há uma necessidade de manifestar uma “identidade” a fim de que as pessoas tenham a quem recorrer.

“Cristianismo” é a institucionalização do Reino de Deus. A palavra “Cristianismo” não consta na bíblia, embora exista o nome “cristão”. Essa palavra (“Cristianismo”) está mais ligada à institucionalização do Evangelho pela igreja católica romana. “Cristianizar” foi um movimento medieval de forçar povos pagãos a adotarem a confissão da igreja institucionalizada. Hoje o que existe é uma “cristianização psicológica”, onde milhares de pessoas lotam os auditórios das igrejas em busca de saúde, prosperidade material, paz e alegria sem, contudo, ter passado por uma experiência genuína de conversão. Esse movimento é virtualmente contrário à ordem de Jesus para fazermos “discípulos”. Aparentemente isso não parece relevante, mas “cristianismo” e tantos “ismos” (catolicismo, evangelicalismo; protestantismo; judaísmo; islamismo etc) não seria uma herança da mentalidade dos velhos odres que viemos carregando pelos séculos e que tem amarrado o crescimento da igreja de Cristo? Todos esses “ismos” têm uma única origem, a religião. O mundo é dividido em blocos religiosos: Islamismo; Cristianismo; Judaísmo; hinduísmo; Budismo; Comunismo (a religião do Estado); Ateísmo (a religião sem Deus) etc., como uma forma de politizar e hoslitizar o Reino de Deus. Quando oramos pelo crescimento do “cristianismo”, não estamos evocando uma mentalidade territorialista, imperialista e monopolista mais voltada para o avanço papal do que para a implantação do Reino de Deus? Jesus nunca usou a palavra “Cristianismo” e sim “Evangelho do Reino” e “Reino de Deus”. Não seria melhor voltarmos a dizer: “Reino de Deus” ou “Evangelho” uma vez que Jesus não veio fundar uma nova religião e sim implantar o Reino? Essa é a tendência humana de institucionalizar tudo e sujeitar a normas o “Evangelho do Reino”. Paulo disse: “não me envergonho do Evangelho” – mas será que ele diria o mesmo do “cristianismo”? Não estaria na hora de mudarmos a nomenclatura, uma vez que os conceitos definem as práticas? Bom, é só um pensamento.

A igreja existe e deve se mostrar ao mundo como a única instituição que trabalha em prol dos não associados. É verdade que uma igreja sem reconhecimento institucional não tem nenhuma expressão e voz diante da sociedade e dos órgãos competentes para reivindicar, cobrar e opinar.

Contudo, acho que em alguns aspectos passamos dos limites, ao querer controlar algumas áreas que acabam forçando uma institucionalização da própria vida cristã. Recentemente um amigo pastor teve que trocar o nome de sua igreja porque alguém em outra cidade patenteou a “marca” e queria cobrar royalty para que meu amigo continuasse usando o nome, mesmo que tivesse sua igreja funcionando a mais tempo do que a do nobre mercenário.

Hoje, no Brasil, chegou uma prática importada dos EUA de colocar o próprio nome no ministério. A impressão que tenho é que esse tipo de pretensão nos diz: “eu sou o dono da unção, da revelação”. É como se o ministério dado pelo Senhor ao miserável pecador torna-se uma marca empresarial patenteada e de uso exclusivo ao proprietário. Não podemos nem mais cantar algumas músicas na igreja por não termos pago os “direitos autorais”. Só uma coisinha: Qual o número da conta bancária do Espírito Santo? “Se você quiser, meu chapa”, diz-se, “faça as suas próprias músicas… ah! E registre-as, senão vem alguém e ‘copia’ também!”.

“Não fale as minhas frases, não pregue as minhas mensagens, não cante as minhas músicas, e se fizer, peça-me permissão e não se esqueça de deixar bem claro quem é o autor!”.

Lembro-me das vezes que fui tremendamente abençoado ouvindo músicas ou ouvindo mensagens sem saber quem estava cantando ou pregando. Foram momentos profundos e íntimos com Deus e que não davam lugar para parar e lembrar sobre de quem era a voz. Isso me faz lembrar João Batista. Jesus disse que não havia e não haverá homem maior que ele (João 11.11), seu ministério era notável pelas multidões que afluíam para ouvir sua mensagem e os reis o respeitavam como um verdadeiro profeta de Deus. Apesar de seu currículo, arguido acerca de quem ele era, respondeu:  “…Eu sou a voz do que clama no deserto…” (João 1.23). Ele não estava interessado que sua foto saísse nos outdoors das principais avenidas, queria apenas que o povo ouvisse sua voz como uma poderosa trombeta em seus dias. Uma vez fui a um importante congresso mundial para líderes que era transmitido para boa parte do planeta. Em uma determinada ministração, não pude mais desfrutar de um momento de absoluta transcendência porque os organizadores não tinham autorização para reproduzir a música! De quem é a patente dos dons espirituais, de quem é a patente do nome “JESUS”?

Não estou aqui, e quero deixar bem claro, incentivando qualquer espécie de pirataria. Infelizmente a cultura da pirataria e do plágio, que é outro extremo da patente, ainda prevalece no Brasil, o que prejudica famílias, onera a Nação é além de tudo é uma prática criminosa. Não podemos sair por aí copiando livros, cds, DVS’s etc. – ganhando dinheiro às custas do trabalho árduo de outros. Precisamos acabar com a cultura do aproveitamento, da “esperteza”, do famoso “jeitinho”, por meio de uma geração de crentes que teme a Deus e respeita a unção que Ele tem dado a Seus servos.

O que estou questionando é: onde chegaremos sentindo-nos donos de tudo o que Deus nos dá? O mundo conheceu avivalistas tremendos que foram poderosamente usados por Deus e sacudiram os alicerces de suas gerações, mas que depois alguém se sentiu no direito de se apropriar daquele mover, institucionalizando-o e matando-o. É o famoso processo a que muitos avivamentos enfrentam, o que denominamos de “os cinco emes”: Mover, Movimento, Método, Morte e Monumento.

Um suposto pastor disse a um amigo meu, que também é pastor: “vou sair do ministério tal e montar o meu. Você sabe como é que é, né? Trabalhar para os outros não tem futuro!”. De repente numa singela reunião de oração o Espírito se derrama de uma determinada forma e alguém se acha no direito de “patentear” aquela unção:

“Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tiago 1:17). Ao contrário dos vinte e quatro anciãos que lançavam suas coroas diante do trono do Senhor, proclamando e reconhecendo a Sua glória, honra e poder (Apocalipse 4.10,11), parece que algumas vezes nós é que queremos que o Senhor lance Sua coroa diante nós! Na parábola dos talentos (Mateus 25.14-30), apesar do Senhor ter colocado nas mãos daqueles homens uma determinada soma, ele ainda era o dono dos valores.

“Disse o Senhor: Quem é, pois, o mordomo fiel e prudente, a quem o senhor confiará os seus conservos para dar-lhes o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo a quem seu senhor, quando vier, achar fazendo assim. Verdadeiramente, vos digo que lhe confiará todos os seus bens. Mas, se aquele servo disser consigo mesmo: Meu senhor tarda em vir, e passar a espancar os criados e as criadas, a comer, a beber e a embriagar-se, virá o senhor daquele servo, em dia em que não o espera e em hora que não sabe, e castigá-lo-á, lançando-lhe a sorte com os infiéis” (Lucas 12.42-46).

Alguma experiência que Deus nos dá no secreto não significa que deve ser institucionalizada e nem colocada na forma de “dogma” ao Corpo de Cristo. Algumas vezes é uma experiência apenas para mim, pois nem tudo o que acontece entre quatro paredes deve ser exposto, concorda? Tenho visto homens e mulheres de Deus que provaram uma experiência pessoal com Jesus em determinadas áreas, ensinando suas experiências como verdadeiros manuais para outros. Vejo que algumas coisas podem servir para o amado ou amada que teve a experiência, mas pode ser que não caiba na minha própria. Glória a Deus pela experiência do irmão, mas não significa que agora todos têm que ser assim! Não institucionalizemos aquilo que Deus deseja que fique na nossa experiência pessoal. Por outro lado, se a experiência não foi nossa, não a conhecemos em toda a sua profundidade, então não fiquemos criticando os outros.

Outra forma que mostra como temos essa mentalidade institucionalizada é a maneira como lidamos com a nossa própria vida espiritual. Tendemos a institucionalizar a nossa vida de oração, nossa leitura bíblica, o jejum e a comunhão com os irmãos, transformando essas áreas em práticas profissionais, desprovidas de verdadeira autenticidade e espontaneidade. Como pastor, marido e pai, tenho muitas responsabilidades: minha própria família, a igreja local (a parte ministerial e administrativa), projetos envolvendo a região onde estamos localizados, a denominação a qual sou parte, as necessidades pessoais etc. Considero-me uma pessoa comprometida com todas essas coisas, desejando ardentemente ver Deus abençoando todas elas. Mas em alguns momentos acabo descobrindo que tenho uma agenda para cada área, que tenho um dia determinado na semana para jejuar e orar por um setor específico. Que tenho um programa de visitas e telefonemas por causa de determinadas necessidades, que minha leitura bíblica e meu devocional correm o risco de se institucionalizar. Dessa forma posso acabar me transformando num pai institucionalizado, num pastor e num cristão institucionalizado. Posso me transformar numa instituição ambulante! “Segunda-feira preciso jejuar e orar por isso, terça-feira por aquilo e assim por diante. Hoje preciso sair com a esposa, mas antes devo ligar para o fulano para saber como anda o novo programa de treinamento, quando chegar vou concluir minha leitura bíblica programada, pois preciso de uma palavra para os discípulos, mas sem esquecer que depois é minha escala na oração pelo projeto infantil… espere um pouco, minha agenda eletrônica me avisa para ligar para meia dúzia de gente, pois hoje é seu aniversário! Meu nome é Marcos e Cia Ltda!”. Você já parou para pensar que quase tudo na nossa vida faz parte de um programa? Tudo se institucionalizou!

Precisamos descobrir, mediante o Espírito Santo, o ponto de equilíbrio entre a necessidade e a liberdade, a espontaneidade. É claro que isso é outra história e que merece uma abordagem a parte. Mas espero poder ter levado você a refletir em como anda sua vida em relação a esse aspecto. Espero que você saiba discernir até onde determinadas tarefas estão lhe roubando a liberdade de filho (a) de Deus.

Olhemos para a vida de Davi. Creio que nenhum de nós tem uma agenda tão lotada como a que aquele homem possuía: audiências constantes, reuniões intermináveis, viagens oficiais, guerras perigosas… realmente podemos pensar numa lista enorme de compromissos, mas o que me chama atenção naquele salmista do Senhor é que ele continuava cultivando comunhão diária com Deus. Ele alimentava diariamente seu espírito na Presença de Deus. Tinha tempo para transcrever em seu “caderno” suas meditações, é o que conhecemos como o Livro de Salmos, pois a maior parte deste fora escrito por Davi. Hoje utilizamos os registros do seu devocional sem pagarmos um centavo por isso!

Uma palavra que se relaciona com cristianismo é “simplicidade” e é aí onde o Pai quer se revelar a cada um de nós. É na singeleza que encontraremos um ponto de equilíbrio, mesmo vivendo num mundo tão complexo e exigente. Não caiamos nas seduções do institucionalismo. Na prática talvez não mude nada, mas algo precisa mudar na nossa maneira de ver as coisas.

Marcos Arrais

MAIS ARTIGOS…

3 Comments For This Post

  1. Léia Says:

    É por isso que gosto mais das palavras : relacionamento, obediência e intimidade, e tenho medo das palavras : instituição, costumes, usos…quero ser “apenas” uma voz. Ou melhor, quero ser apenas uma torneira. Não importa o material da torneira, se é de ouro, ferro ou plástico, só importa que ela esteja limpa para que a água possa passar sem impedimentos e sem contaminação…e no fim das contas, é só a água que importa mesmo!!!

  2. Ricardo Marfin Says:

    Estava dando um giro por aqui e assisti aqui (sai daqui, fui pra aí e voltei pra cá)rs, e de novo senti o poder da palavra na sessão vídeos “O Espírito Santo no Cristão”.
    Todos os meses é um dos videos mais vistos no site, oque passou passou, mas oque passou luzindo se resplandescerá para sempre, Glória Deus Aleluias!!!

  3. Priscila Says:

    Pastor, nem sei o que dizer. Quero ser uma voz!

Leave a Reply

Advertise Here
Advertise Here