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Considerações sobre o protestantismo brasileiro

Posted on 31 outubro 2014 by admin

1 RESUMO

O presente artigo trata de analisar os desafios enfrentados pelo evangelicalismo brasileiro na alta modernidade, levando em consideração as observações feitas pelo autor Jorge Pinheiro em seu livro “Teologia humana pra lá de humana”. Busca-se observar o protestantismo brasileiro tendo em vista fatores culturais, sociais e teológicos.

Palavras-chaves: Cultura. Alta modernidade. Fundamentos. Evangelicalismo.

2 RELIGIÃO E CULTURA

“Religião e cultura”. Eis uma relação cujo fator fundante não se sabe exatamente a origem, ou seja, a cultura dá origem à religião ou a religião dá origem à cultura? Até onde uma começa e outra termina? Não seriam ambas complementares? Nessa ambivalência, como sugere o autor Jorge Pinheiro (2010) em seu livro “Teologia Humana”, a religião seria “fator fundante” da cultura, e não produto do mercado capitalista ou de trânsito religioso. O autor sustenta essa tese contrapondo-a com o fato de a religião ter tido o papel preponderante nas transformações que ocorreram na Alemanha, Inglaterra e até nos Estados Unidos.

A própria arte, ética e estética demonstram como a dimensão religiosa está presente na produção humana. Tão presente que se fosse tirado dessa produção tudo o que diz respeito à religião, talvez nos restasse apenas os instintos mais primitivos e fôssemos relegados à condição de meros animais. Logo, religiosidade e humanidade são intrínsecos um ao outro. Um não se faz sem o outro. O desejo por justiça social, a luta pelos direitos humanos e o sentido de solidariedade também conferem à civilização um caráter essencialmente religioso, já que esses apelos são oriundos do universo espiritual. Para Pinheiro (2010, p.100), a religião “é o fundamento, a profundidade e a substância da vida espiritual do ser humano”. Portanto, se a espiritualidade se relaciona ao ser humano com a transcendência, a religiosidade traduz essa dimensão espiritual na cultura.

Por outro lado não há como desvincular as questões socioeconômicas da maneira como a religião e mais precisamente a igreja evangélica vem alinhando o seu discurso e práticas ao contexto material em que está inserida. Haja vista que o ressurgimento do antigo liberalismo econômico na forma de “neoliberalismo” a partir da década de 1970 reconfigurou o discurso e as práticas evangélicas brasileiras. Empresto, portanto, neste artigo, a concepção de Marx em que as condições materiais dão base para as condições ideológicas, tornando a existência fator fundante da consciência. Não que deveria ser assim, pois a igreja está carregada de potencial transformador civilizacional, como bem provou em vários momentos da sua história.

De outra maneira percebe-se que a cultura está impregnada com valores religiosos. O próprio capitalismo tem uma conotação religiosa: o seu apelo, sua exigência de devoção às marcas, seu culto ininterrupto e incondicional, seu “proselitismo” (marketing), seus sacrifícios e promessas de um paraíso são oriundos da religião. As produções cinematográficas apelam para uma espécie de herói-redentor, um “Messias” que põe ordem ao caos e triunfa sobre a injustiça.

A espiritualidade está na base da própria personalidade humana, conferindo sentido e aplacando a angústia provocada pelas incertezas. Diria que o homem é essencialmente religioso. Ocorre que a sua espiritualidade se expressa nas mais diversas formas (certas ou erradas) de se compreender e praticar. A urbanidade, produto do processo de industrialização, não apagou essa dimensão espiritual, haja vista que no Brasil urbano a igreja evangélica cresceu cerca de 250%, dados de 2009, nos últimos dez anos (PINHEIRO, 2010, p.99).

Também há de se considerar os estudos de Zygmunt Balman sobre a pós-modernidade. Bauman desenvolve o conceito de “modernidade líquida” – uma condição de extrema fluidez das relações humanas em que os antigos sólidos que serviam de apoio para a humanidade passam por um processo de “derretimento”, afetando os poderes, os princípios, as instituições, as relações, a economia etc. Os fluídos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se” (…). Diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros, invadem e inundam seu caminho (BAUMAN, 2001, p.141).

De acordo com essa forma de observar a ultramodernidade, não estou certo se poderíamos medi-la com os mesmos cânones das sociedades baseadas em valores sólidos, afirmando que a religião teria o mesmo peso na formação da civilização. Dessa forma, temos um problema: responder em que direção ocorre a relação cultura-religião e estabelecer se a religião é a matéria-prima ou o produto da cultura.

Todas as culturas conhecidas, em todos os tempos, tentaram, com diferentes graus de sucesso e insucesso, estabelecer a ponte entre a brevidade da vida mortal e a eternidade do universo. Cada cultura ofereceu uma fórmula para essa proeza de alquimista: transformar substâncias primárias, frágeis e transitórias em metais preciosos capazes de resistir à erosão e de ser duradouros. Nossa geração talvez seja a primeira a nascer sem uma fórmula dessas. (BALMAN, 2005, p.81)

3 A BUSCA POR FUNDAMENTOS

Numa sociedade de valores tão diluídos, tão desintegrados e relativizados, é preciso que afirmemos os fundamentos sólidos legados pela Reforma Protestante. Corre-se o risco em desmantelar-se em apenas uma geração valores basilares que levaram séculos para serem construídos. Num tempo de relativização dos absolutos, um dos grandes problemas em desconstruir tudo é que não há nenhuma base na qual nos firmar.

Isso não significa que o movimento evangélico deva enrijecer-se frente às mudanças que ocorrem, tornando-se intransigente com aspectos culturais e assim relegado ao ostracismo – muito menos significa ceder à liquidez da ultramodernidade – mas manter relativa plasticidade que lhe permita acompanhar as constantes transformações civilizacionais.

A igreja sempre transitará entre a sua mundanidade e o seu chamado a ser um povo separado. Stott (2005, p.25) critica o risco de enveredar-se por extremos, quando observa:

Às vezes parece que o mercado impõe suas regras também à igreja. Com toda prestatividade, nós cedemos ao espírito moderno, tornando-nos escravos da última moda, e até mesmo idólatras, dispostos a sacrificar a verdade no altar da modernidade. Então a busca por relevância acaba se degenerando, transformando-se em uma obsessão por popularidade.
O outro extremo da irrelevância é a acomodação, que é uma covarde e inescrupulosa rendição ao Zeitgeist, o espírito da época.

Stott propõem não uma “dupla recusa”, mas o “ouvir em dobro” – é o que chama de “ouvir tanto a Palavra quanto o mundo” (STOTT, 2005, p.29). Assim o desafio ao movimento evangélico contemporâneo é “apresentar Jesus à nossa geração de tal forma que seja, ao mesmo tempo, histórico e contemporâneo, autêntico e atrativo, novo no sentido de recente (neos), mas não novo no sentido de ser uma novidade (kainos)” (STOTT, 2005, p.25).

4 O PROTESTANTISMO BRASILEIRO E O PROJETO CAPITALISTA

Estudar o Protestantismo brasileiro é também compreender o processo de urbanização neste país. Com forte influência Norte Americana, o protestantismo que se estendia por aqui estava associado ao liberalismo já consolidado nos Estados Unidos. Os protestantes de missão adaptaram a mensagem reformada sobre a “salvação individual” às concepções do individualismo Liberal. Filho (2003) afirma:

O Protestantismo de Missão chega ao Continente sul-americano e ao Brasil, em particular, como parte integrante do projeto expansionista norte-americano e sob o influxo da ideologia do “destino manifesto”. (…) veio associado ao liberalismo já consolidado naquele país, e se propunha a deitar raízes numa sociedade aristocrática arcaica, além de escravista (p.124).

Tal projeto esbarrava numa sociedade de cultura católica marcada pelo tradicionalismo econômico e que já estava arraigada numa conjuntura aristocrática, rural e escravista.

Mas é a partir da década de cinquenta que as estruturas do país começam a ceder ao projeto liberal. Vê-se o surgimento de novos setores sociais, de uma classe média e de um proletariado urbano moderno. Surgia o evangelicalismo, movimento reformista, redentor que passou a crescer entre as massas urbanas.

Para Pinheiro (2010, p.153), “o evangelicalismo transformou-se em formador e dinamizador de um projeto capitalista”. Pinheiro também observa que na década de cinquenta, “a busca de sentido era central” (p.149) e que no final da década de setenta essa busca é retomada, agora como expressão de identidade social. Tal busca encontra no evangelicalismo emergente a sua resposta, uma vez que este construía seu projeto político em princípios que norteavam a sua busca por fundamentos.

O evangelicalismo brasileiro na alta modernidade é marcado pela busca por fundamento. Ao mesmo tempo em que se vive num contexto urbano, globalizado e multicultural, cabe ao evangelicalismo trazer sentido às massas. O desafio que deve ser encarado diz respeito ao sentido de pertença numa sociedade que não reivindica para si qualquer vínculo de pertencimento. Tratar de questões existenciais já não é mais tão relevante em um tempo em que o efêmero se tornou um fim em si mesmo. Assim, falar de eternidade, de vida e morte e de recompensas celestiais faz pouco ou nenhum sentido para o homem pós-moderno.

O evangelicalismo precisa situar-se na dupla realidade a qual pertence. Por um lado não pode esquecer de que é portador de uma mensagem eterna que aponta para além da materialidade do mundo presente – mas por outro lado não pode olvidar-se de que está inserido num contexto histórico e que é produtor de história no contexto sociocultural em que vive.

Nessa dicotomia o evagelicalismo pendula entre dois extremos: o extremo da afirmação do mundo e o extremo da sua negação. No extremo da negação encontra-se aqueles movimentos que ignoram questões sociais por compreenderem que o mundo está afundado na corrupção e, portanto, nada pode mudar essa realidade escatológica; no extremo da afirmação encontram-se os movimentos de acomodação com o mundo, submetendo princípios fundamentais do Evangelho às mudanças socioculturais passageiras. Nesse aspecto ressalto o que escreve Pinheiro (2010, p.153): “Quer queiramos ou não, o fato é que o evagelicalismo transformou-se em formador e dinamizador de um projeto capitalista”. Por um lado rejeita-se o mundo irresponsavelmente e por outro o aceita e o reforça indiscriminadamente. Eis o pêndulo!

A igreja é colocada diante da pressão do efêmero, redirecionando seu discurso e práticas de acordo com o eixo do mundo secularizado e alheio às buscas eternas. Não que essa busca tenha desaparecido, mas que ficou soterrada sob os escombros da transitoriedade e do hedonismo. O desafio do evangelicalismo na alta modernidade tem a ver com a remoção desses entulhos até que a fonte eterna no interior de cada homem e mulher possa jorrar.

5 CONCLUSÃO

O movimento evangélico precisa levar em conta os polos da mundanidade e da eternidade a fim de construir a sua proposta na alta modernidade. Essa proposta deve estar em sintonia com a materialidade, mas não pode perder a transcendência. Assim, a “ação evangélica não-alienada deve criar novas possibilidades de existência, provocar antecipações significativas do futuro” (PINHEIRO, 2010, p.153). O desafio, então, está em correlacionar essas forças aparentemente opostas, mas que podem criar, na medida certa, as condições para que o Evangelho se torne relevante para a alta modernidade.

6 BIBLIOGRAFIA

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
PINHEIRO, Jorge. Teologia humana pra lá de humana. São Paulo: Fonte Editorial, 2010.
STOTT, John. Ouça o Espírito ouça o mundo. São Paulo: ABU Editora, 2005.

Marcos Arrais

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