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Brasilidade muito além do futebol

Posted on 25 março 2014 by admin

O que nos faz sentirmos brasileiros? Essa é a pergunta sobre a qual muitos pensadores – sociólogos, antropólogos e filósofos – têm se debruçado, sem, contudo, encontrar uma resposta definitiva (e talvez nunca a encontrem, e quem sabe é bom que não a encontrem!).

Mas a questão que desejo colocar neste artigo não é nem sobre brasilidade especificamente, mas sobre a noção de identidade nacional, seja de que país for. O sociólogo Zygmunt Balman, em seu livro “Identidade” afirma: “A identidade – sejamos claros sobre isso – é um ‘conceitos altamente contestado’. Sempre que se ouve essa palavra, pode-se estar certo de que está havendo uma batalha”. Balman, então, conclui: “a identidade é uma luta simultânea contra a dissolução e a fragmentação; uma intenção de devorar e ao mesmo tempo uma recusa a ser devorado…”.

A globalização, fenômeno moderno que se acentuou com as tecnologias da comunicação e as novas formas de mercado, causou uma espécie de corrosão da identidade nacional uma vez que se observa a substituição da importância do Estado-nação que dava a noção de “natividade ou nascimento”, para uma espécie de “cidadão-mundo” onde o espaço geográfico não delimita mais a nossa nacionalidade, mas o estar inserido no mundo do consumo. Além do que o conceito de nacionalidade quase que se perdeu pela moderna sociedade de massa. “Globalização significa que o Estado não tem mais o poder ou o desejo de manter uma união sólida e inabalável com a nação”, afirma Balman.

Por algum período o esporte era usado para afirmação da superioridade nacional. Isso já remontava à Grécia clássica. Na Segunda Grande Guerra, as olimpíadas foram usadas como afirmação racial. Já na Guerra Fria, o esporte tornou-se uma grande queda de braço estre os blocos capitalista e socialista. Com a vitória do capitalismo, o Capital apropriou-se do esporte, tornando-o um produto de consumo de massas (o número do jogador em sua camisa confunde-se no universo de propagandas estampadas por toda a sua indumentária).

Assistir a um atleta em plena competição fazia uma nação inteira perder o fôlego, pois o que estava em jogo era um sentimento nacional. “sentimento nacional”! Por falar nisso, a copa nos faz sentir mais brasileiros? O que nos faz sentir mais brasileiros?

À beira de um vexame internacional, o Brasil assiste com certa apatia os desdobramentos do mundial de 2014. A copa corre o risco de ser um fiasco diante de tantas demandas históricas que se arrastam sem perspectiva de mudanças. A desistência da presidente em discursar na abertura da copa é emblemática, pois não há mais uma proposta de afirmação nacional no mundial. Isso porque desistimos (para bem ou para mal) de colocar sobre a bola no pé de um jogador o sentimento de brasilidade.

O que nos faz sentir brasileiros, meus amigos, não é mais uma bandeira hasteada, ou um hino cantado solenemente; muito menos um time de futebol entrando em campo. O que nos faz sentir brasileiros é a dignidade enquanto cidadãos de direito. O que nos faz sentir brasileiros é gozar de educação, saúde e segurança de qualidade. É ter trabalho com salário digno que coloque “o pão nosso de cada dia” em nossas mesas. O que nos faz sentir brasileiros, muito além do futebol, é sermos representados por uma classe política que respeite o povo que tem.

Assim, essa copa pode ser mais uma forma de alienação de massas ou uma oportunidade de repensarmos sobre o Brasil que queremos, pois brasilidade se faz com justiça social e não com bola no pé.

Marcos Arrais

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