Archive | fevereiro, 2014

Teologia líquida

Posted on 15 fevereiro 2014 by admin

O sociólogo Zygmunt Bauman desenvolve o conceito de “modernidade líquida” – uma condição de extrema fluidez das relações humanas em que os antigo sólidos que serviam de apoio para a humanidade passam por um processo de “derretimento”, afetando os poderes, os princípios, as instituições, as relações, a economia etc. Os fluídos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se” (…). Diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros, invadem e inundam seu caminho.

Pois bem, servindo-me desse conceito de liquidez, quero aqui observar a forma (ou “não forma”) como a nossa teologia (ou “não teologia”) escorre, passando de um estado sólido para o líquido (ou até evaporando-se!) em nossos dias.

Por sermos uma sociedade que celebra o futuro em lugar do passado, a mudança e a inovação em vez da solidez e da tradição, vamos adequando a nossa teologia às inovações da modernidade. As demandas cada vez mais velozes servem de leito para que a teologia percorra por seus caminhos sinuosos, ora alargando-se, ora estreitando-se. Criamos assim uma teologia (ou “não teologia”) da conveniência, do momento, que se evapora, que se cria e se recria de acordo com os novos recipientes modernos.

Os sólidos bíblicos, assim, vão adquirindo o formato desejado pelo homem moderno que faz uso das Escrituras para legitimar convicções (ou “não convicções”) pessoais. Vamos presenciando um constante (ou seria “inconstante”?) afastamento do legado da Reforma. Assim, o Sola Scriptura deixa de ser um abalizador para dar lugar às exigências de uma sociedade fluída. Aliás, é justamente a “não exigência” que caracteriza os nossos dias! Em seu livro Modernidade líquida, Bauman afirma que “é a velocidade atordoante da circulação, da reciclagem, do envelhecimento, do entulho e da substituição que traz lucro hoje – não a durabilidade e confiabilidade do produto”.

Não quero que confundam o meu texto com um discurso tradicionalista, afinal de contas a própria Bíblia nos admoesta a que nos renovemos (Romanos 12.2) e Deus mesmo promete fazer coisas novas (Apocalipse 21.5), mas Jesus também se refere ao escriba versado nas Escrituras que tira do seu bom tesouro, “coisas velhas” e “coisas novas” (Mateus 13.52). Precisamos aprender a equilibrar as “velhas verdades” com as constantes mudanças pelas quais passa o nosso mundo. Não podemos tornar as Escrituras servas da modernidade, mas buscar ler a modernidade pela ótica das Escrituras. As Escrituras são supratemporais e supraculturais. Isso as coloca além de ideologias políticas, de experiências pessoais e de condições sociais.

John Stott em seu livro “Ouça o Espírito, ouça o mundo: Como ser um cristão contemporâneo”, escreve: “como resposta a esta impressão comum de que o cristianismo está irremediavelmente desatualizado, nós precisamos reafirmar nossa fundamental convicção cristã de que Deus continua a falar através daquilo que ele já falou. Sua Palavra não é um fóssil pré-histórico, a ser exibido numa redoma de vidro, mas, sim, uma mensagem viva para o mundo de hoje. O lugar dela é no mercado e não no museu”. Mas o mesmo autor adverte para o risco de sacrificarmos a essência do Evangelho no altar da modernidade: “Ao mesmo tempo, nosso dilema permanece. O evangelho pode ser ‘modernizado’? Será factível esperar que a igreja aplique a fé histórica ao cenário contemporâneo, a Palavra ao mundo, sem trair a primeira nem alienar o segundo? Será que o cristianismo pode conservar autêntica sua identidade e ao mesmo tempo demonstrar sua relevância ou é preciso sacrificar um deles em detrimento do outro? Seremos obrigados a escolher entre voltar ao passado e fazer do presente um amuleto, entre recitar velhas verdades que são antiquadas e inventar novas ideias que são espúrias? Dentre esses dois, talvez o maior perigo seja o de que a igreja tente reformular a fé de forma a solapar sua integridade, tornando-a irreconhecível diante de seus arautos originais”.

Não podemos usar as Escrituras com a conveniência de pregadores oportunistas que a transformam num manual de receitas para o sucesso, num livro de magia e até mesmo numa espécie de manifesto para respaldar ideologias políticas. A nossa teologia deve ser coerente com os nossos dias, sem ser incoerente com a tradição canônica, deve falar ao homem do nosso tempo e dar-lhe respostas sem que para isso seja necessário recortá-la e descontextualizá-la, deve ser relevante sem ser condescendente, deve falar ao coração do homem sem deixar de ser cristocêntrica, deve buscar convivência sem conivência, deve falar na temporalidade sem abrir mão da sua transcendência.

As Escrituras sempre serão uma contraproposta ao sistema e nunca uma aliada deste. Elas sempre se chocarão com a hegemonia e nunca se conformarão ao discurso corrente. A Palavra do Senhor é líquida no sentido de falar ao coração do homem em seu tempo: “goteje a minha doutrina como a chuva, destile a minha palavra como o orvalho, como chuvisco sobre a relva e como gotas de água sobre a erva” (Deuteronômio 32), mas é sólida pois sempre revelará o que está no coração imutável de Deus: “passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” (Mateus 24:35).

Marcos Arrais

 

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Religiosidade Flex – Parte 03

Posted on 03 fevereiro 2014 by admin

 

Simpatia  góspel ou contextualização moderna da fé? Na busca por fiéis, vale mesmo tudo ou existe algum limite? E se existe, qual seria?

A imensa diversidade religiosa a qual me referi em artigos anteriores se dá em parte pelo que o sociólogo Max Weber denominou de um processo de “desencantamento” em que o homem deixaria de explicar os o mundo como resultante de fenômenos mágicos para entende-los a partir de fatos científicos. Assim, a religião vai deixando de ser um assunto público para restringir-se à esfera privada (embora sua influência no público seja gigantesca). Com a desestatização da religião, abriu-se um vácuo para um pluralismo religioso, uma vez que não há mais nenhuma centralização desse aspecto por parte do Estado. Weber então apostou na “secularização”, onde as pessoas passariam de uma atitude de “recusa do mundo para uma atitude de aceitação” (Guerreiro, 2013, p.192). Dessa forma a religião vai perdendo o seu papel de legitimadora da sociedade para se tornar um assunto estritamente pessoal.

Ocorre que a perda desse espaço deu-se mais no âmbito das religiões majoritárias como é o caso do cristianismo representado pela Igreja Católica, que se transformou no maior “doador” universal de fiéis para as outras religiões. Deste modo, abriu-se caminho para que novos movimentos religiosos surgissem no cenário social – é o que alguns estudiosos do assunto já chamam de “retorno ao sagrado”, “reencantamento” ou “descecularização”.

Para a socióloga Françoise Champion (1997), a característica marcante da nova religiosidade é seu aspecto de bricolagem, ou seja, o próprio indivíduo monta e remonta o seu conjunto de crenças e práticas de acordo com o que mais lhe for conveniente. É a religião à la carte. Para a autora, é mais que um sincretismo, é um ecletismo, uma vez que não existe uma síntese, mas a justaposição de diversos elementos provenientes das mais diversas fontes religiosas. Como afirmei anteriormente, o que interessa não é “como” funciona, mas “se” funciona.

Portanto, presenciamos uma religiosidade flutuante e difusa – flutuante porque ela transita entre as mais diversas formas de fés – e difusa porque não se sabe ao certo onde começa e termina a influência de determinadas crenças na montagem dessa criatura que mais lembra aquela criada pelo doutor Frankenstein!

O protestantismo não ficou livre desse fenômeno, mas adaptou-se tranquilamente num processo simbiótico onde crendices populares fundiram-se a dogmas entes pétreos. Assim deu-se origem a uma teologia “sem pé e sem cabeça”, ou pelo manos com pés e cabeças montados pelo pragmatismo moderno.

Sem preocupação com coerência, vamos assistindo pastores vestidos de branco com a proposta de “tirar encosto” usando sal grosso e ervas, à semelhança de pais-de-santo; presenciamos também padres que trocaram a batina pelo terno e gravata e fazem fervorosas prédicas ao estilo pentecostal. Claro que a questão não está na roupa em si, mas no mundo simbólico que gira em torno dessas indumentárias. Assistimos seitas exóticas, para não dizer bizarras, como a dos “templários” em que fica explícito o objetivo financeiro no angariamento de fiéis. Há também as “igrejas de ateus” em que há coleta de ofertas, pregação e música em seus “cultos”. Na pós-modernidade há espaço pra tudo!

Estaríamos caminhando para uma espécie de colcha de retalho religiosa em que a preocupação com a originalidade seria a última coisa a ser pensada, ou caminhamos para um diálogo cada vez mais tolerante entre crenças que deveriam ser naturalmente incongruentes?

Marcos Arrais

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