Archive | janeiro, 2014

Religiosidade Flex – parte 02

Posted on 30 janeiro 2014 by admin

Vai uma pizza aí? Meia calabresa e meia mussarela? Ou seria melhor meia de strogonoff e meia frango com catupiry? Você também pode escolher com quatro sabores: um de carne seca, outro de camarão e os outros dois podem ser divididos em chocolate branco e beijinho.

Não seria a pizza “à moda da casa” ou “ao modo do freguês” um retrato do sincretismo religioso brasileiro? No segundo país que mais consome pizza no mundo tudo pode desde que atenda ao paladar eclético tupiniquim.

Quando falo de sincretismo, refiro-me ao processo de fusão cultural, em que vários elementos se mesclam dando forma a um novo jeito de ser. Isso não é novidade numa nação que resultou da confluência de vários povos. Aqui tudo pode: pode ser católico aos domingos, evangélico nas segundas, espírita kardecista nas terças, budista nas quartas, muçulmano na quintas, umbandista nas sextas e aos sábados ainda sobrar tempo pra ir à sinagoga judaica – isso quando não colocamos tudo entre dois pães e fazemos uma espécie de “X-tudo”! Nesse processo assimilatório, o povo brasileiro construiu sua personalidade identitária sincrética, a qual o antropólogo Darcy Ribeiro chama de “ninguendade”, ou seja, somos e ao mesmo tempo não somos.

Aqui é possível ir à missa de libertação, receber o lencinho ungido, beber a água abençoada (prática terapêutica comum no espiritismo kardecista), levar para casa a rosa consagrada, fazer promessa no terreiro de Iansã e pagar a graça recebida na igreja de Santa Bárbara, como bem retrata o filme “O pagador de promessas” (que, aliás, recomendo).

Tomando emprestada a figura do colonizador português “aventureiro”, criado por Sérgio Buarque de Holanda (um “tipo ideal” na linguagem weberiana), onde o “seu ideal será colher o fruto sem plantar a árvore” e deseja a prosperidade sem custo, os títulos honoríficos, as posições e riquezas fáceis “tão característica da gente da nossa terra” (Holanda, 2013, p.46), plasmou-se o comportamento do brasileiro acentuadamente pragmático, imediatista, utilitário, aproveitador, onde o que importa não é a origem daquilo que se acredita (“de onde vem?), mas a função do que se acredita (“para que serve?”).

O comportamento religioso brasileiro tem sido como um carretel de linha que de desenrolou ao chão e não se sabe ao certo onde se encontra a ponta. Nas palavras de José Bittencourt Filho: “O que se torna de difícil compreensão é a pluralidade das concepções religiosas num mesmo indivíduo. Em outras palavras, o que chama a atenção na religiosidade brasileira média (…) é a coexistência numa só pessoa de concepções religiosas, filosóficas e doutrinárias por vezes opostas e mesmo racionalmente inconciliáveis” (Filho, 2003, p.68).

Acresce-se a esse fator, o atenuante de termos a nossa base religiosa fundamentada na magia das tribos indígenas panteístas que aqui já estavam, os ritos da religião afro que chegaram com os escravos e o misticismo do catolicismo medieval dos colonizadores, criando uma espécie de religiosidade de folclore, em que cada um professa uma religião oficial, mas cultiva uma espiritualidade conveniente.Temos, assim, pessoas pertencentes às elites intelectuais carregando cristais e aromatizadores e frequentando secretamente a feiticeira semianalfabeta na favela, ou mesmo protestantes reformados que não perdem um culto pentecostal de revelação na casa da profetiza.

A verdade é que nesse vasto leque de opções, vamos construindo o nosso próprio mix de crenças.

 

Marcos Arrais

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Religiosidade Flex – parte 01

Posted on 29 janeiro 2014 by admin

“É álcool ou gasolina?” – “Tanto faz!”. Assim anunciava a campanha publicitária da Fiat para divulgar os novos veículos flex que entravam no mercado. Com motores adaptados para os dois tipos de combustíveis, os novos carros entraram no mercado prometendo comodidade, conveniência e economia.

Não seria tal ideia compatível com a natureza mestiça do brasileiro? Por sermos um povo de muitos matizes culturais, não nos incomodamos quando o assunto também é religião. Para se ter uma ideia, no Senso de 2000 foram apontadas pelo menos 35.000 confissões religiosas em território nacional. Isso mesmo: t-r-i-n-t-a-e-c-i-n-c-o-m-i-l. Isso dá a ideia do nosso imenso pluralismo religioso e cultural, e demonstra a multiplicidade do caráter largamente assimilatório do povo brasileiro que já em sua formação fora constituído por um vasto leque cultural de povos que aqui fincaram suas raízes.

A facilidade com a qual o brasileiro aceita, incorpora e monta seu próprio repertório de crenças, além de ter sua causa em fatores peculiarmente culturais, também encontra sua explicação no espírito pós-moderno, bastante relativizado e tolerante. O Sociólogo Zygmunt Bauman, expressa muito bem essa realidade quando trata da modernidade líquida, afirmando que a base social que apresenta rigidez é substituída pela flexibilidade com a qual o homem pós-moderno se comporta em todos os campos da sua vida, inclusive o religioso. No caso brasileiro, temos o agravante de sermos um povo que desde as suas raízes coloniais abrigou com facilidade as confissões religiosas e comportamentos culturais que aqui chegaram. Somos uma cultura acentuadamente híbrida, formada a partir de diferentes povos que se fundiram quando aqui se encontraram. Isso explica a “dupla (ou mais) pertença” com a qual o indivíduo pós-moderno, multi-identitário se comporta. Temos, então, umbandistas que se consideram católicos e protestantes que incorporaram práticas xamãs e umbandistas em seus cultos, tais como energização de objetos, usos de rituais próprios das religiões afros, e invocação de espíritos, sem mencionar a Nova Era com suas práticas esotéricas que refletem muito bem o espírito líquido do homem pós-moderno, desvinculado de instituições.

Dessa forma, criamos a nossa própria religiosidade. Uma religiosidade a brasileira. Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro “Raízes do Brasil” observa que “no Brasil, é precisamente o rigorismo do rito que se afrouxa e se humaniza” (HOLANDA, 2013, p. 149).

Parece que a religiosidade brasileira não se contenta com uma crença rigorosa, afinal de contas “tanto faz” quando a questão é resolver os nossos problemas. Dessa maneira, misturamos os combustíveis pois o que importa é fazer o carro andar!

 

Marcos Arrais

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