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Entre o paradoxo da vida e da morte

Posted on 26 dezembro 2013 by admin

Algumas vezes criamos expectativas que são mais produto de romantismo do que de realidade. O pior é que quando idealizamos algo que nunca alcançaremos, nos frustramos e acabamos desistindo daquilo que realmente é possível. Eu creio que devemos alimentar utopias, mas se pensarmos em utopia como um sonho que sempre está adiante de nós – e que por estar “adiante”, não importa quanto caminhemos, sempre estaremos aquém desse ideal, – devemos entendê-la como algo que nos faz caminhar sempre em frente. “Caminhar em frente”, acredito que esse é o sentido da nossa existência e é aí onde entra a discussão que introduzo neste artigo:

Quando alimentamos a ilusão de “voltarmos a ser quem éramos” no passado, além de ser um retrocesso, é um caminho perigoso de infantilização. Tem muita gente por aí deixando de aproveitar o que pode ser “hoje” pra voltar a ser quem era “ontem”. Assim, perdemos as duas coisas e não ficamos com nada: nem o que éramos no passado e nem quem podemos ser no presente.

O apóstolo Paulo diz: “dia a dia morro” (1 Coríntios 15.31). Paulo compreendeu o que era se reinventar diariamente e isso fica evidente nos seus próprios escritos. Algumas vezes lemos um Paulo extremamente radical e intransigente e outras um Paulo moderado e tolerante. Isso está evidente principalmente em suas cartas aos coríntios. Essa natureza reinventiva de Paulo confunde até grandes exegetas que chegam a achar que não foi ele quem escreveu todas aquelas cartas. Mas eu pergunto: quem de nós diria e faria hoje tudo o que fez ontem?

Somos fruto do tempo em que vivemos e a ele estamos presos invariavelmente. A fase que vivemos em determinadas etapas de nossas vidas influenciará a formas como interpretamos o mundo. Poderia até dizer que estamos condenados a isso. Mas quem não muda é porque não cresceu, infantilizou-se, estagnou. Sinceramente não vejo como algo positivo quando algumas pessoas dizem com orgulho que nunca mudaram. Na verdade isso soa mais como retrocesso do que como amadurecimento. Se eu olhar para uma criança de cinco anos, perceberei no seu corpo e mente características próprias de alguém com essa idade, mas se após dez anos eu voltar a ver nessa mesma pessoa as mesmas atitudes e aparência, certamente vou concluir que há algo errado!

Acredito que não só podemos mudar todos os dias, como temos essa obrigação! “Morrer dia a dia” é condição sine qua non para nos mantermos vivos e cumprirmos o propósito da nossa existência. Evidentemente não me refiro a questões que dizem respeito a valores que devemos conservar, o que não está em pauta neste pequeno artigo, mas que devemos aproveitar as conquistas alcançadas para seguirmos adiante. Mais uma vez me sirvo do pensamento de Paulo para dar voz ao meu pensamento: “Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim” (Filipenses 3:13).

Percebo que estamos tão preocupados no “avançar” que não nos damos conta da condição fundamental para isso: “esquecendo-me”. Às vezes estamos tão preocupados em “lembrar” que desconsideramos a importância do “esquecer”. Esquecer é tão essencial quanto lembrar, aliás, no que diz respeito às mudanças necessárias, é melhor esforçar-nos para esquecermos do que para lembrarmos.
Dizem os cientistas que a cada 3 segundos uma informação ou experiência é armazenada em nossa memória, transformando-se em passado. Isso significa que se você está lendo este artigo você já deve ter mudado (ou pelo menos deveria) uma três ou quatro vezes! Mas não é isso que o Senhor nos diz em sua Palavra? “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21.5)?

O próprio Deus tem expectativa que mudemos, aliás, como diz um amigo meu: “é preciso que mudemos muito para continuarmos os mesmos”. É uma frase paradoxal, mas a vida é um paradoxo! Manter-se vivo pode significar dialogarmos constantemente com a incoerência, porque conviver consigo é admitir que somos incoerentes por natureza (Romanos 7.14-25).

Ao buscarmos ser quem éramos, negamos a nossa própria natureza humana e nos despersonalizamos. Ao admitir a nossa “bipolaridade existencial” fica mais fácil dialogarmos conosco mesmos e buscarmos uma síntese de quem realmente somos hoje.
Por isso, penso que a declaração de Paulo em 1 Coríntios 15.31 é um convite necessário para nos mantermos vivos e atuantes. É no exercício da morte diária que vamos construindo a nossa natureza e caminhando rumo à perfeição. Quanto tempo isso levará? Bom, o tempo que for necessário, até mesmo uma eternidade!

 

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