Archive | agosto, 2013

Tributo à ignorância

Posted on 23 agosto 2013 by admin

Se tudo tivesse uma explicação, como a vida seria sem graça!

O que impulsiona o ser humano para frente é a existência do mistério e esse mistério sempre se apresentará diante de novas descobertas.

É objetivo da ciência explicar o explicável e o da religião o inexplicável. Ambas são amigas, beijam-se, são irmãs. As coisas mais belas já produzidas pelo homem foram realizadas pela ciência e pela religião – maravilhas inimagináveis que nos fazem estarrecer. Mas tanto uma quanto outra encontram seus próprios limites. A verdadeira ciência e espiritualidade só são legítimas porque se fazem justamente pela ignorância. Devemos mais à ignorância do que à ciência, pois a é ignorância  que nos põem frente à odisseia do desconhecido, dando-nos alguma esperança de um dia viermos a conhecer.

Não se frustre ao deparar-se com um “não sei”. Há poucas coisas na vida tão libertadoras como o reconhecimento de que pouco ou nada sabemos. Livre-se da arrogância de querer tudo saber e viva alegremente a ignorância de ser humano. Cante desafinado, escreva apaixonado e quando alguém lhe disser: “está errado”, então diga: “é porque eu não sei!”.

Não há nada que nos torne mais conscientes da nossa própria ignorância como o mistério de Deus. Por isso a pseudociência finge ignorá-lo, pois admiti-lo nos faria reconhecer a nossa estupidez, o que seria libertador. Ao pensarmos em Deus e nos aprofundarmos nessa busca, somos levados a olhar para “alguém” que está acima das nossas definições, fórmulas e esquemas fechados.

Quando nos deparamos diante de questões perturbadoras tais como a morte e a vida, o mal e o bem, percebemos o quanto nossas explicações pouco ou nada se encaixam. Basta conversar cinco minutos com uma criança para percebermos, diante das suas audaciosas perguntas, que nada sabemos – então, irritados, respondemos um “porque sim” qualquer para acabarmos com a agonia do orgulho adulto ferido que não sobrevive à infante sabatina. Entretanto, o mais triste, é que aos poucos ensinaremos essa criança a fingir que sabe, e aí, com um tapinha em seus ombros diremos para ela: “agora você cresceu!”.

Marcos Arrais

Leia também: A sabedoria de não saber

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