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Escutatória

Posted on 03 novembro 2014 by admin

Ou o silêncio como alimento

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Parafraseio Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Não aguentamos ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor: “Se eu fosse você…” Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas”.

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos. Foi trabalhar num programa social com os índios. Contou-me sua experiência. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.” E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos, passei uma semana num mosteiro na Suíça. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz aonde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminada por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U” definiam um espaço vazio onde quem quisesse podia sentar numa almofada. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E comecei a me alimentar de silêncio também…

Por Rubem Alves

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Considerações sobre o protestantismo brasileiro

Posted on 31 outubro 2014 by admin

1 RESUMO

O presente artigo trata de analisar os desafios enfrentados pelo evangelicalismo brasileiro na alta modernidade, levando em consideração as observações feitas pelo autor Jorge Pinheiro em seu livro “Teologia humana pra lá de humana”. Busca-se observar o protestantismo brasileiro tendo em vista fatores culturais, sociais e teológicos.

Palavras-chaves: Cultura. Alta modernidade. Fundamentos. Evangelicalismo.

2 RELIGIÃO E CULTURA

“Religião e cultura”. Eis uma relação cujo fator fundante não se sabe exatamente a origem, ou seja, a cultura dá origem à religião ou a religião dá origem à cultura? Até onde uma começa e outra termina? Não seriam ambas complementares? Nessa ambivalência, como sugere o autor Jorge Pinheiro (2010) em seu livro “Teologia Humana”, a religião seria “fator fundante” da cultura, e não produto do mercado capitalista ou de trânsito religioso. O autor sustenta essa tese contrapondo-a com o fato de a religião ter tido o papel preponderante nas transformações que ocorreram na Alemanha, Inglaterra e até nos Estados Unidos.

A própria arte, ética e estética demonstram como a dimensão religiosa está presente na produção humana. Tão presente que se fosse tirado dessa produção tudo o que diz respeito à religião, talvez nos restasse apenas os instintos mais primitivos e fôssemos relegados à condição de meros animais. Logo, religiosidade e humanidade são intrínsecos um ao outro. Um não se faz sem o outro. O desejo por justiça social, a luta pelos direitos humanos e o sentido de solidariedade também conferem à civilização um caráter essencialmente religioso, já que esses apelos são oriundos do universo espiritual. Para Pinheiro (2010, p.100), a religião “é o fundamento, a profundidade e a substância da vida espiritual do ser humano”. Portanto, se a espiritualidade se relaciona ao ser humano com a transcendência, a religiosidade traduz essa dimensão espiritual na cultura.

Por outro lado não há como desvincular as questões socioeconômicas da maneira como a religião e mais precisamente a igreja evangélica vem alinhando o seu discurso e práticas ao contexto material em que está inserida. Haja vista que o ressurgimento do antigo liberalismo econômico na forma de “neoliberalismo” a partir da década de 1970 reconfigurou o discurso e as práticas evangélicas brasileiras. Empresto, portanto, neste artigo, a concepção de Marx em que as condições materiais dão base para as condições ideológicas, tornando a existência fator fundante da consciência. Não que deveria ser assim, pois a igreja está carregada de potencial transformador civilizacional, como bem provou em vários momentos da sua história.

De outra maneira percebe-se que a cultura está impregnada com valores religiosos. O próprio capitalismo tem uma conotação religiosa: o seu apelo, sua exigência de devoção às marcas, seu culto ininterrupto e incondicional, seu “proselitismo” (marketing), seus sacrifícios e promessas de um paraíso são oriundos da religião. As produções cinematográficas apelam para uma espécie de herói-redentor, um “Messias” que põe ordem ao caos e triunfa sobre a injustiça.

A espiritualidade está na base da própria personalidade humana, conferindo sentido e aplacando a angústia provocada pelas incertezas. Diria que o homem é essencialmente religioso. Ocorre que a sua espiritualidade se expressa nas mais diversas formas (certas ou erradas) de se compreender e praticar. A urbanidade, produto do processo de industrialização, não apagou essa dimensão espiritual, haja vista que no Brasil urbano a igreja evangélica cresceu cerca de 250%, dados de 2009, nos últimos dez anos (PINHEIRO, 2010, p.99).

Também há de se considerar os estudos de Zygmunt Balman sobre a pós-modernidade. Bauman desenvolve o conceito de “modernidade líquida” – uma condição de extrema fluidez das relações humanas em que os antigos sólidos que serviam de apoio para a humanidade passam por um processo de “derretimento”, afetando os poderes, os princípios, as instituições, as relações, a economia etc. Os fluídos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se” (…). Diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros, invadem e inundam seu caminho (BAUMAN, 2001, p.141).

De acordo com essa forma de observar a ultramodernidade, não estou certo se poderíamos medi-la com os mesmos cânones das sociedades baseadas em valores sólidos, afirmando que a religião teria o mesmo peso na formação da civilização. Dessa forma, temos um problema: responder em que direção ocorre a relação cultura-religião e estabelecer se a religião é a matéria-prima ou o produto da cultura.

Todas as culturas conhecidas, em todos os tempos, tentaram, com diferentes graus de sucesso e insucesso, estabelecer a ponte entre a brevidade da vida mortal e a eternidade do universo. Cada cultura ofereceu uma fórmula para essa proeza de alquimista: transformar substâncias primárias, frágeis e transitórias em metais preciosos capazes de resistir à erosão e de ser duradouros. Nossa geração talvez seja a primeira a nascer sem uma fórmula dessas. (BALMAN, 2005, p.81)

3 A BUSCA POR FUNDAMENTOS

Numa sociedade de valores tão diluídos, tão desintegrados e relativizados, é preciso que afirmemos os fundamentos sólidos legados pela Reforma Protestante. Corre-se o risco em desmantelar-se em apenas uma geração valores basilares que levaram séculos para serem construídos. Num tempo de relativização dos absolutos, um dos grandes problemas em desconstruir tudo é que não há nenhuma base na qual nos firmar.

Isso não significa que o movimento evangélico deva enrijecer-se frente às mudanças que ocorrem, tornando-se intransigente com aspectos culturais e assim relegado ao ostracismo – muito menos significa ceder à liquidez da ultramodernidade – mas manter relativa plasticidade que lhe permita acompanhar as constantes transformações civilizacionais.

A igreja sempre transitará entre a sua mundanidade e o seu chamado a ser um povo separado. Stott (2005, p.25) critica o risco de enveredar-se por extremos, quando observa:

Às vezes parece que o mercado impõe suas regras também à igreja. Com toda prestatividade, nós cedemos ao espírito moderno, tornando-nos escravos da última moda, e até mesmo idólatras, dispostos a sacrificar a verdade no altar da modernidade. Então a busca por relevância acaba se degenerando, transformando-se em uma obsessão por popularidade.
O outro extremo da irrelevância é a acomodação, que é uma covarde e inescrupulosa rendição ao Zeitgeist, o espírito da época.

Stott propõem não uma “dupla recusa”, mas o “ouvir em dobro” – é o que chama de “ouvir tanto a Palavra quanto o mundo” (STOTT, 2005, p.29). Assim o desafio ao movimento evangélico contemporâneo é “apresentar Jesus à nossa geração de tal forma que seja, ao mesmo tempo, histórico e contemporâneo, autêntico e atrativo, novo no sentido de recente (neos), mas não novo no sentido de ser uma novidade (kainos)” (STOTT, 2005, p.25).

4 O PROTESTANTISMO BRASILEIRO E O PROJETO CAPITALISTA

Estudar o Protestantismo brasileiro é também compreender o processo de urbanização neste país. Com forte influência Norte Americana, o protestantismo que se estendia por aqui estava associado ao liberalismo já consolidado nos Estados Unidos. Os protestantes de missão adaptaram a mensagem reformada sobre a “salvação individual” às concepções do individualismo Liberal. Filho (2003) afirma:

O Protestantismo de Missão chega ao Continente sul-americano e ao Brasil, em particular, como parte integrante do projeto expansionista norte-americano e sob o influxo da ideologia do “destino manifesto”. (…) veio associado ao liberalismo já consolidado naquele país, e se propunha a deitar raízes numa sociedade aristocrática arcaica, além de escravista (p.124).

Tal projeto esbarrava numa sociedade de cultura católica marcada pelo tradicionalismo econômico e que já estava arraigada numa conjuntura aristocrática, rural e escravista.

Mas é a partir da década de cinquenta que as estruturas do país começam a ceder ao projeto liberal. Vê-se o surgimento de novos setores sociais, de uma classe média e de um proletariado urbano moderno. Surgia o evangelicalismo, movimento reformista, redentor que passou a crescer entre as massas urbanas.

Para Pinheiro (2010, p.153), “o evangelicalismo transformou-se em formador e dinamizador de um projeto capitalista”. Pinheiro também observa que na década de cinquenta, “a busca de sentido era central” (p.149) e que no final da década de setenta essa busca é retomada, agora como expressão de identidade social. Tal busca encontra no evangelicalismo emergente a sua resposta, uma vez que este construía seu projeto político em princípios que norteavam a sua busca por fundamentos.

O evangelicalismo brasileiro na alta modernidade é marcado pela busca por fundamento. Ao mesmo tempo em que se vive num contexto urbano, globalizado e multicultural, cabe ao evangelicalismo trazer sentido às massas. O desafio que deve ser encarado diz respeito ao sentido de pertença numa sociedade que não reivindica para si qualquer vínculo de pertencimento. Tratar de questões existenciais já não é mais tão relevante em um tempo em que o efêmero se tornou um fim em si mesmo. Assim, falar de eternidade, de vida e morte e de recompensas celestiais faz pouco ou nenhum sentido para o homem pós-moderno.

O evangelicalismo precisa situar-se na dupla realidade a qual pertence. Por um lado não pode esquecer de que é portador de uma mensagem eterna que aponta para além da materialidade do mundo presente – mas por outro lado não pode olvidar-se de que está inserido num contexto histórico e que é produtor de história no contexto sociocultural em que vive.

Nessa dicotomia o evagelicalismo pendula entre dois extremos: o extremo da afirmação do mundo e o extremo da sua negação. No extremo da negação encontra-se aqueles movimentos que ignoram questões sociais por compreenderem que o mundo está afundado na corrupção e, portanto, nada pode mudar essa realidade escatológica; no extremo da afirmação encontram-se os movimentos de acomodação com o mundo, submetendo princípios fundamentais do Evangelho às mudanças socioculturais passageiras. Nesse aspecto ressalto o que escreve Pinheiro (2010, p.153): “Quer queiramos ou não, o fato é que o evagelicalismo transformou-se em formador e dinamizador de um projeto capitalista”. Por um lado rejeita-se o mundo irresponsavelmente e por outro o aceita e o reforça indiscriminadamente. Eis o pêndulo!

A igreja é colocada diante da pressão do efêmero, redirecionando seu discurso e práticas de acordo com o eixo do mundo secularizado e alheio às buscas eternas. Não que essa busca tenha desaparecido, mas que ficou soterrada sob os escombros da transitoriedade e do hedonismo. O desafio do evangelicalismo na alta modernidade tem a ver com a remoção desses entulhos até que a fonte eterna no interior de cada homem e mulher possa jorrar.

5 CONCLUSÃO

O movimento evangélico precisa levar em conta os polos da mundanidade e da eternidade a fim de construir a sua proposta na alta modernidade. Essa proposta deve estar em sintonia com a materialidade, mas não pode perder a transcendência. Assim, a “ação evangélica não-alienada deve criar novas possibilidades de existência, provocar antecipações significativas do futuro” (PINHEIRO, 2010, p.153). O desafio, então, está em correlacionar essas forças aparentemente opostas, mas que podem criar, na medida certa, as condições para que o Evangelho se torne relevante para a alta modernidade.

6 BIBLIOGRAFIA

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
PINHEIRO, Jorge. Teologia humana pra lá de humana. São Paulo: Fonte Editorial, 2010.
STOTT, John. Ouça o Espírito ouça o mundo. São Paulo: ABU Editora, 2005.

Marcos Arrais

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A “Substância Católica” e O “Princípio Protestante”

Posted on 26 julho 2014 by admin

O teólogo Jorge Pinheiro em seu livro “Teologia Bíblica e Sistemática: o ultimato da práxis protestante” (Fonte Editorial) aborda uma questão muito interessante: o conceito de “substância católica” e “princípio protestante”. A “substância católica” é entendida no aspecto da revelação universal. Tal revelação diz respeito à graça comunicada a todas as culturas. É algo intrínseco ao próprio homem. A substância  católica “é a automanifestação do Eterno a todos os seres humanos, em todos os lugares e em todas as épocas por meio da criação” (PINHEIRO, 2012, p.36). Não há cultura sem essa dimensão, pois todas cultivam alguma noção de espiritualidade que se revela na religiosidade de um povo. Poderíamos dizer que a religião é a forma como a dimensão do transcendente, do eterno se manifesta na materialidade de uma cultura local. A noção do bem e do mal, as questões envolvendo a teodisséia, a angústia da morte e a intuição do sagrado são fatores inerentes ao próprio homem.

 Há que se considerar esse aspecto na comunicação do Evangelho, não desprezando a ação divina nas culturas do planeta, mas usando-as como matéria-prima para a comunicação específica das Boas-Novas de Cristo. Aqui entra o que Pinheiro chama de “princípio protestante” que é a graça comunicada de maneira específica ao apresentar a personalidade divina, ou seja, é a comunhão ética da graça. Como bem afirma o autor, o princípio protestante é “a manifestação da essência na existência” (p.31), ou seja, é quando ocorre o direcionamento para a mensagem do Reino de Deus:

 Princípio protestante é revelação especial e particular, automanifestação do Eterno para pessoas, tempos e lugares definidos, através do evento crístico, a fim de que pessoas entrem num relacionamento redentor com ele (p.47).

 Se a substância católica é a percepção da ação divina nas culturas humanas, o princípio protestante é o ponto em que essa ação converge para Cristo: “É por meio do símbolo da cruz que desaparecem as particularidades e o finito do evento Jesus, dando lugar ao significado do Cristo” (PINHEIRO, 2012, p.31). É pelo princípio protestante que não se pode confundir “universalidade” com “universalismo”, ou seja, o coração humano tem necessidade de mais do que saber acerca da transcendência da vida, bem como da existência do bem e do mal; ele precisa conhecer a maneira como Deus interviu na história humana revelando a Sua graça em Cristo. Também não se pode, pelo princípio protestante, subestimar as ações divinas nos corações humanos, como bem observa o autor: “Por isso, a relevância do kerigma cristão deve andar em aliança com o conhecimento da presença do sagrado expresso na cultura e nas dobraduras da secularidade” (p.32). Deus age constantemente nas culturas, mesmo assim convida o homem a participar dessa comunicação.

O autor identifica duas formas em que a igreja se manifesta: a “igreja latente”, ou seja, aquela que está presente nas culturas por meio do princípio moral escrito nos corações de todos os seres humanos (Atos 14.17; Romanos 2.15) e do princípio da espiritualidade nas religiões e na cultura; Pinheiro também demonstra a “igreja manifesta”, ou seja, aquela em que Cristo é o elemento central. Assim, cabe-nos a tarefa de fazer a transição de uma “participação latente para uma participação manifesta na comunidade espiritual” (p.32).

Perceber essa “comunidade latente”, que já existe mesmo antes da revelação central é fundamental para o progresso da “comunidade espiritual”, que se manifesta depois desse encontro. É o “evento crístico” (p.35).

A compreensão da substância católica tem implicações diretas na forma como interpretamos a bíblia, pois não se pode desconsiderar o elemento humano na composição do texto inspirado, uma vez que o próprio escritor sagrado estava mergulhado e condicionado em sua historicidade, ou seja, o homem não foi um instrumento automático na escrita do texto sagrado, mas a sua percepção deu-se por meio de um “processo de adequação histórica” (p.40,41) como parte do próprio contexto sociocultural em que estava inserido, construindo os seus conceitos a partir dessa percepção, dando significado imanente ao sentido da revelação. Assim,

 No processo da revelação, a pessoa se encontra em processo de construção, já que não é plena senhora do processo. É um ser colocado no espaço e no tempo, que estabelece relações com a realidade que o cerca dentro desse processo de conhecimento enquanto dimensão histórica e humana” (PINHEIRO, 2012, p.41)

Outra implicação importante é no que diz respeito ao fator “linguagem”, pois é pela linguagem que a substância católica é representada e comunicada a todos traduzindo-se no tempo e no espaço. Por fim, a substância católica inclui a fé, pois esta não se trata simplesmente de conhecimento racional, mas de percepção intuitiva e afetiva (2Ts 2.10).

 

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O QUE É “SOCIEDADE DE MASSA”?

Posted on 05 junho 2014 by admin

A expressão sociedade de massa foi criada no século XX para designar um tipo de sociedade marcada pela produção em grande escala de bens de consumo, pela concentração industrial, pela expansão dos meios de comunicação de massa (televisão, rádio, publicações impressas e, hoje, pela rede de computadores), pelo consumismo desenfreado, pelo conformismo social e pelaação da publicidade, que induz as pessoas a se comportarem como meros consumidores e não como cidadãos dotados de espírito crítico. 0 texto a seguir analisa esse fenômeno.

A sociedade de massa surge num estágio avançado do processo de modernização. Tanto no que diz respeito ao desenvolvimento econômico, com a concentração da indústria na produção de bens de massa e o crescimento cada vez maior do setor terciário, setor de serviços, como o de lazer, quanto no que se refere à urbanização, com a concentração da maior parte da população nas grandes cidades. Esse processo é acompanhado da burocratização e da progressiva redução das margens da iniciativa individual.

Na sociedade de massa, tendem a perder peso sucessivamente os vínculos naturais, como os da família e da comunidade local, prejudicados pelas organizações formais e pelas relações intermediadas pelos meios de comunicação de massa: daí o notável crescimento das relações mútuas entre sujeitos às vezes sumamente distantes entre si e, ao mesmo tempo, o empobrecimento e a despersonalização dessas inter-relações, que envolvem apenas aspectos parciais e limitados da personalidade dos indivíduos – as “comunidades” criadas via internet são um exemplo disso.

Já no conceito de “homem-massa” do pensador espanhol Ortega y Gasset estava presente a ideia de conformismo, que depois havia de ser considerado como próprio da sociedade de massa. 0 homem-massa se sente à vontade – afirma Ortega y Gasset – quando é igual a “todo o mundo”, isto é, à massa indiferenciada. Essa ideia levou ao conceito de “conformismo de autômatos” criado por Erich Fromm em 0 medo da liberdade.

Segundo Fromm, com o conformismo típico da sociedade de massa, o indivíduo deixa de ser ele próprio, tomando-se totalmente igual aos demais e como os outros querem que ele seja. O preço disso é a perda do “eu genuíno”, da subjetividade original da pessoa, que é constrangida a “fugir da liberdade”, ou seja, a buscar uma identidade substitutiva (um “pseudo-eu”) na contínua aprovação e no contínuo reconhecimento por parte dos outros.

Alguns críticos radicais que aplicam o modelo da sociedade de massa aos Estados Unidos, em especial, ou, de um modo geral, às sociedades industriais avançadas do Ocidente, reconhecem em tais sociedades, além de um conformismo difuso, uma acentuada concentração do poder. 0 sociólogo norte-americano Charles Wright Mills constata nos Estados Unidos, em concomitância com o surgimento da sociedade de massa, uma verdadeira e autêntica elite dominante, compacta e coesa, composta pelas mais altas figuras do poder econômico, dos círculos militares e da política, que detém todo o poder nas decisões importantes para a nação.

O pensador alemão Herbert Marcuse, por sua vez, descreve a sociedade de massa estadunidense como uma sociedade “de uma só dimensão”, caracterizada pelo pleno domínio econômico-tecnológico sobre as pessoas, por um controle absoluto dos meios de comunicação de massa, por uma grosseira manipulação da cultura e pela obstrução de qualquer espaço de discordância: um estado de coisas que não hesita em chamar de “totalitarismo” (um totalitarismo não “terrorífico”, mas “tecnológico”).

Adaptado de: ORTEGATI, Cássio. Sociedade de massa. In: BOBBIO, N.; Matteucci, N. e PASQUINO, G. Dicionário de política. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1986. p. 1211-3.

Vamos pensar?

 

Alguns autores afirmam que as pessoas sofrem uma verdadeira “lavagem cerebral” na sociedade de massa e que todos se conformam com o que essa sociedade lhes impõe. Segundo Herbert Marcuse, a sociedade de massa tende a fazer do consumo um ideal de vida, levando as pessoas a limitar seus horizontes e suas aspirações à posse de bens como um automóvel, uma casa equipada com geladeira e outros eletrodomésticos, etc. Hoje, poderíamos acrescentar a esses bens o celular e o computador. Você concorda com a visão desses pensadores? Explique sua resposta, analisando o fenômeno moderno da sociedade de massa.

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Brasilidade muito além do futebol

Posted on 25 março 2014 by admin

O que nos faz sentirmos brasileiros? Essa é a pergunta sobre a qual muitos pensadores – sociólogos, antropólogos e filósofos – têm se debruçado, sem, contudo, encontrar uma resposta definitiva (e talvez nunca a encontrem, e quem sabe é bom que não a encontrem!).

Mas a questão que desejo colocar neste artigo não é nem sobre brasilidade especificamente, mas sobre a noção de identidade nacional, seja de que país for. O sociólogo Zygmunt Balman, em seu livro “Identidade” afirma: “A identidade – sejamos claros sobre isso – é um ‘conceitos altamente contestado’. Sempre que se ouve essa palavra, pode-se estar certo de que está havendo uma batalha”. Balman, então, conclui: “a identidade é uma luta simultânea contra a dissolução e a fragmentação; uma intenção de devorar e ao mesmo tempo uma recusa a ser devorado…”.

A globalização, fenômeno moderno que se acentuou com as tecnologias da comunicação e as novas formas de mercado, causou uma espécie de corrosão da identidade nacional uma vez que se observa a substituição da importância do Estado-nação que dava a noção de “natividade ou nascimento”, para uma espécie de “cidadão-mundo” onde o espaço geográfico não delimita mais a nossa nacionalidade, mas o estar inserido no mundo do consumo. Além do que o conceito de nacionalidade quase que se perdeu pela moderna sociedade de massa. “Globalização significa que o Estado não tem mais o poder ou o desejo de manter uma união sólida e inabalável com a nação”, afirma Balman.

Por algum período o esporte era usado para afirmação da superioridade nacional. Isso já remontava à Grécia clássica. Na Segunda Grande Guerra, as olimpíadas foram usadas como afirmação racial. Já na Guerra Fria, o esporte tornou-se uma grande queda de braço estre os blocos capitalista e socialista. Com a vitória do capitalismo, o Capital apropriou-se do esporte, tornando-o um produto de consumo de massas (o número do jogador em sua camisa confunde-se no universo de propagandas estampadas por toda a sua indumentária).

Assistir a um atleta em plena competição fazia uma nação inteira perder o fôlego, pois o que estava em jogo era um sentimento nacional. “sentimento nacional”! Por falar nisso, a copa nos faz sentir mais brasileiros? O que nos faz sentir mais brasileiros?

À beira de um vexame internacional, o Brasil assiste com certa apatia os desdobramentos do mundial de 2014. A copa corre o risco de ser um fiasco diante de tantas demandas históricas que se arrastam sem perspectiva de mudanças. A desistência da presidente em discursar na abertura da copa é emblemática, pois não há mais uma proposta de afirmação nacional no mundial. Isso porque desistimos (para bem ou para mal) de colocar sobre a bola no pé de um jogador o sentimento de brasilidade.

O que nos faz sentir brasileiros, meus amigos, não é mais uma bandeira hasteada, ou um hino cantado solenemente; muito menos um time de futebol entrando em campo. O que nos faz sentir brasileiros é a dignidade enquanto cidadãos de direito. O que nos faz sentir brasileiros é gozar de educação, saúde e segurança de qualidade. É ter trabalho com salário digno que coloque “o pão nosso de cada dia” em nossas mesas. O que nos faz sentir brasileiros, muito além do futebol, é sermos representados por uma classe política que respeite o povo que tem.

Assim, essa copa pode ser mais uma forma de alienação de massas ou uma oportunidade de repensarmos sobre o Brasil que queremos, pois brasilidade se faz com justiça social e não com bola no pé.

Marcos Arrais

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Teologia líquida

Posted on 15 fevereiro 2014 by admin

O sociólogo Zygmunt Bauman desenvolve o conceito de “modernidade líquida” – uma condição de extrema fluidez das relações humanas em que os antigo sólidos que serviam de apoio para a humanidade passam por um processo de “derretimento”, afetando os poderes, os princípios, as instituições, as relações, a economia etc. Os fluídos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se” (…). Diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros, invadem e inundam seu caminho.

Pois bem, servindo-me desse conceito de liquidez, quero aqui observar a forma (ou “não forma”) como a nossa teologia (ou “não teologia”) escorre, passando de um estado sólido para o líquido (ou até evaporando-se!) em nossos dias.

Por sermos uma sociedade que celebra o futuro em lugar do passado, a mudança e a inovação em vez da solidez e da tradição, vamos adequando a nossa teologia às inovações da modernidade. As demandas cada vez mais velozes servem de leito para que a teologia percorra por seus caminhos sinuosos, ora alargando-se, ora estreitando-se. Criamos assim uma teologia (ou “não teologia”) da conveniência, do momento, que se evapora, que se cria e se recria de acordo com os novos recipientes modernos.

Os sólidos bíblicos, assim, vão adquirindo o formato desejado pelo homem moderno que faz uso das Escrituras para legitimar convicções (ou “não convicções”) pessoais. Vamos presenciando um constante (ou seria “inconstante”?) afastamento do legado da Reforma. Assim, o Sola Scriptura deixa de ser um abalizador para dar lugar às exigências de uma sociedade fluída. Aliás, é justamente a “não exigência” que caracteriza os nossos dias! Em seu livro Modernidade líquida, Bauman afirma que “é a velocidade atordoante da circulação, da reciclagem, do envelhecimento, do entulho e da substituição que traz lucro hoje – não a durabilidade e confiabilidade do produto”.

Não quero que confundam o meu texto com um discurso tradicionalista, afinal de contas a própria Bíblia nos admoesta a que nos renovemos (Romanos 12.2) e Deus mesmo promete fazer coisas novas (Apocalipse 21.5), mas Jesus também se refere ao escriba versado nas Escrituras que tira do seu bom tesouro, “coisas velhas” e “coisas novas” (Mateus 13.52). Precisamos aprender a equilibrar as “velhas verdades” com as constantes mudanças pelas quais passa o nosso mundo. Não podemos tornar as Escrituras servas da modernidade, mas buscar ler a modernidade pela ótica das Escrituras. As Escrituras são supratemporais e supraculturais. Isso as coloca além de ideologias políticas, de experiências pessoais e de condições sociais.

John Stott em seu livro “Ouça o Espírito, ouça o mundo: Como ser um cristão contemporâneo”, escreve: “como resposta a esta impressão comum de que o cristianismo está irremediavelmente desatualizado, nós precisamos reafirmar nossa fundamental convicção cristã de que Deus continua a falar através daquilo que ele já falou. Sua Palavra não é um fóssil pré-histórico, a ser exibido numa redoma de vidro, mas, sim, uma mensagem viva para o mundo de hoje. O lugar dela é no mercado e não no museu”. Mas o mesmo autor adverte para o risco de sacrificarmos a essência do Evangelho no altar da modernidade: “Ao mesmo tempo, nosso dilema permanece. O evangelho pode ser ‘modernizado’? Será factível esperar que a igreja aplique a fé histórica ao cenário contemporâneo, a Palavra ao mundo, sem trair a primeira nem alienar o segundo? Será que o cristianismo pode conservar autêntica sua identidade e ao mesmo tempo demonstrar sua relevância ou é preciso sacrificar um deles em detrimento do outro? Seremos obrigados a escolher entre voltar ao passado e fazer do presente um amuleto, entre recitar velhas verdades que são antiquadas e inventar novas ideias que são espúrias? Dentre esses dois, talvez o maior perigo seja o de que a igreja tente reformular a fé de forma a solapar sua integridade, tornando-a irreconhecível diante de seus arautos originais”.

Não podemos usar as Escrituras com a conveniência de pregadores oportunistas que a transformam num manual de receitas para o sucesso, num livro de magia e até mesmo numa espécie de manifesto para respaldar ideologias políticas. A nossa teologia deve ser coerente com os nossos dias, sem ser incoerente com a tradição canônica, deve falar ao homem do nosso tempo e dar-lhe respostas sem que para isso seja necessário recortá-la e descontextualizá-la, deve ser relevante sem ser condescendente, deve falar ao coração do homem sem deixar de ser cristocêntrica, deve buscar convivência sem conivência, deve falar na temporalidade sem abrir mão da sua transcendência.

As Escrituras sempre serão uma contraproposta ao sistema e nunca uma aliada deste. Elas sempre se chocarão com a hegemonia e nunca se conformarão ao discurso corrente. A Palavra do Senhor é líquida no sentido de falar ao coração do homem em seu tempo: “goteje a minha doutrina como a chuva, destile a minha palavra como o orvalho, como chuvisco sobre a relva e como gotas de água sobre a erva” (Deuteronômio 32), mas é sólida pois sempre revelará o que está no coração imutável de Deus: “passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” (Mateus 24:35).

Marcos Arrais

 

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Entre o paradoxo da vida e da morte

Posted on 26 dezembro 2013 by admin

Algumas vezes criamos expectativas que são mais produto de romantismo do que de realidade. O pior é que quando idealizamos algo que nunca alcançaremos, nos frustramos e acabamos desistindo daquilo que realmente é possível. Eu creio que devemos alimentar utopias, mas se pensarmos em utopia como um sonho que sempre está adiante de nós – e que por estar “adiante”, não importa quanto caminhemos, sempre estaremos aquém desse ideal, – devemos entendê-la como algo que nos faz caminhar sempre em frente. “Caminhar em frente”, acredito que esse é o sentido da nossa existência e é aí onde entra a discussão que introduzo neste artigo:

Quando alimentamos a ilusão de “voltarmos a ser quem éramos” no passado, além de ser um retrocesso, é um caminho perigoso de infantilização. Tem muita gente por aí deixando de aproveitar o que pode ser “hoje” pra voltar a ser quem era “ontem”. Assim, perdemos as duas coisas e não ficamos com nada: nem o que éramos no passado e nem quem podemos ser no presente.

O apóstolo Paulo diz: “dia a dia morro” (1 Coríntios 15.31). Paulo compreendeu o que era se reinventar diariamente e isso fica evidente nos seus próprios escritos. Algumas vezes lemos um Paulo extremamente radical e intransigente e outras um Paulo moderado e tolerante. Isso está evidente principalmente em suas cartas aos coríntios. Essa natureza reinventiva de Paulo confunde até grandes exegetas que chegam a achar que não foi ele quem escreveu todas aquelas cartas. Mas eu pergunto: quem de nós diria e faria hoje tudo o que fez ontem?

Somos fruto do tempo em que vivemos e a ele estamos presos invariavelmente. A fase que vivemos em determinadas etapas de nossas vidas influenciará a formas como interpretamos o mundo. Poderia até dizer que estamos condenados a isso. Mas quem não muda é porque não cresceu, infantilizou-se, estagnou. Sinceramente não vejo como algo positivo quando algumas pessoas dizem com orgulho que nunca mudaram. Na verdade isso soa mais como retrocesso do que como amadurecimento. Se eu olhar para uma criança de cinco anos, perceberei no seu corpo e mente características próprias de alguém com essa idade, mas se após dez anos eu voltar a ver nessa mesma pessoa as mesmas atitudes e aparência, certamente vou concluir que há algo errado!

Acredito que não só podemos mudar todos os dias, como temos essa obrigação! “Morrer dia a dia” é condição sine qua non para nos mantermos vivos e cumprirmos o propósito da nossa existência. Evidentemente não me refiro a questões que dizem respeito a valores que devemos conservar, o que não está em pauta neste pequeno artigo, mas que devemos aproveitar as conquistas alcançadas para seguirmos adiante. Mais uma vez me sirvo do pensamento de Paulo para dar voz ao meu pensamento: “Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim” (Filipenses 3:13).

Percebo que estamos tão preocupados no “avançar” que não nos damos conta da condição fundamental para isso: “esquecendo-me”. Às vezes estamos tão preocupados em “lembrar” que desconsideramos a importância do “esquecer”. Esquecer é tão essencial quanto lembrar, aliás, no que diz respeito às mudanças necessárias, é melhor esforçar-nos para esquecermos do que para lembrarmos.
Dizem os cientistas que a cada 3 segundos uma informação ou experiência é armazenada em nossa memória, transformando-se em passado. Isso significa que se você está lendo este artigo você já deve ter mudado (ou pelo menos deveria) uma três ou quatro vezes! Mas não é isso que o Senhor nos diz em sua Palavra? “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21.5)?

O próprio Deus tem expectativa que mudemos, aliás, como diz um amigo meu: “é preciso que mudemos muito para continuarmos os mesmos”. É uma frase paradoxal, mas a vida é um paradoxo! Manter-se vivo pode significar dialogarmos constantemente com a incoerência, porque conviver consigo é admitir que somos incoerentes por natureza (Romanos 7.14-25).

Ao buscarmos ser quem éramos, negamos a nossa própria natureza humana e nos despersonalizamos. Ao admitir a nossa “bipolaridade existencial” fica mais fácil dialogarmos conosco mesmos e buscarmos uma síntese de quem realmente somos hoje.
Por isso, penso que a declaração de Paulo em 1 Coríntios 15.31 é um convite necessário para nos mantermos vivos e atuantes. É no exercício da morte diária que vamos construindo a nossa natureza e caminhando rumo à perfeição. Quanto tempo isso levará? Bom, o tempo que for necessário, até mesmo uma eternidade!

 

MAIS ARTIGOS

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Eu e minhas incongruências

Posted on 21 novembro 2013 by admin

Fico pensando se a IGREJA que buscamos é a mesma que Jesus tem para oferecer;

Se a CRUZ que desejamos é a mesma que Jesus nos convidou a carregar;

Se o EVANGELHO que ouvimos é o mesmo que Jesus veio pregar;

Se o REINO que queremos é o mesmo que Jesus veio implantar;

Se as PRIORIDADES que perseguimos são as mesmas que Jesus dedicou a Sua vida para buscar;

Se estaríamos dispostos a entregar as nossas vidas pela mesma CAUSA que Jesus entregou a Sua;

Se o AMOR com que amamos é o mesmo com o qual queremos ser amados.

Enfim, fico pensando:

Se o JESUS que buscamos e conhecemos hoje é o mesmo que encarnou-se e revelou-se na Galileia;

Se o DEUS que enxergamos é o mesmo que Jesus veio mostrar;

Se a BÍBLIA que ensinamos é a mesma que os profetas e apóstolos escreveram;

Se o que chamamos de “SERVIR” é a mesma coisa que Jesus mostrou aos Seus discípulos.

Fico pensando tanta coisa!

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POBREZA E EXCLUSÃO SOCIAL: Urbanização e criminalidade

Posted on 28 outubro 2013 by admin

O desconcertante fenômeno do aumento da pobreza crônica tem sido explicado como efeito da atração dos centros urbanos sobre um setor agrário também empobrecido. As taxas indicam que cerca de 35% da oopulação pobre dos centros urbanos é composta de migrantes.

Essa explicação é inquietante não apenas por mostrar que o setor agrário tende a expelir trabalhadores — pois essa parece ser uma característica do processo de industrialização e de racionalização do trabalho agrícola com o uso de máquinas e de mão-de-obra assalariada sazonal — mas também porque mostra que, ao decréscimo de utilização da mão-de-obra no setor agrário, não corresponde proporcional aproveitamento dessa mesma mão-de-obra na indústria. Logo, qualquer cidadão conclui que mais gente passa a depender dos serviços municipais e de uma ex¬pansão da produção. Por outro lado, essa expansão não pode resultar de um aumento da população privada de rendimentos mínimos e regulares ou sem possibilidade de fazer aumentar a demanda de produtos.

À percepção de incompetência do sistema econômico e político se soma o desconforto de saber que, nos grandes centros, milhares de pes¬soas não se encontram sob a vigilância das instituições sociais, vivem como podem, à deriva e à revelia dos planejamentos oficiais. Cria-se, em relação a essa população, um sentimento de desconfiança e de insegu¬rança. Há uma relação entre o crescimento dessa população e o aumen¬to da criminalidade nos grandes centros urbanos que se evidencia tanto na mídia como nos estudos de caráter científico.

O perfil social dos criminosos também ajuda a reforçar essa associação entre pobreza e criminalidade: os autores dos crimes oficialmente denunciados são geralmente analfabetos, trabalhadores braçais e predominantemente de cor negra.Entretanto, sociólogos mais cuidadosos têm estabelecido outras relações. Constata-se que inúmeros crimes não são denunciados, que as estatísticas apenas expõem aquela população que, tida de início como sus¬peita, é sistematicamente controlada. Existe, portanto, em relação aos dados, uma distorção provocada pela “suspeita sistemática”, como a definiu o cientista social brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro. Segundo essa éti¬ca, é contra a população pobre e estigmatizada que se conduz a prática policial, a investigação e as formas de punição. Conclui o autor citado que a prática policial preconceituosa, somada à desproteção das classes subalternas, torna a relação entre pobreza e criminalidade uma profecia autocumprida. Forma-se um círculo vicioso em que o indivíduo, para ter trabalho, precisa ter domicílio, registro, carteira profissional e uma situação civil legal. Impossibilitado de trabalhar por não cumprir tais exigências, ele passa a engrossar as fileiras de marginalizados que vivem sob constante vigilância policial.

Desse modo, a urbanização tem resultado no crescimento da pobreza urbana, atraindo para os centros industriais populações expulsas do campo pela mecanização do trabalho agrícola, pela baixa produtividade do meio rural e pela concentração da terra. Um verdadeiro fluxo populacional se estabelece do campo para a periferia das grandes cidades ou para os centros das cidades que se deterioram. Recentes estatísticas demonstram que o desenvolvimento econômico tem aumentado a pobreza e a desigualdade social.
O estigma da pobreza

Sabemos que o Estado mostra-se incompetente no combate à pobre¬za e que as medidas públicas têm sido mais de policiamento, vigilância e violência do que de resolução do problema. Iniciativas de caráter assistencial têm resultados paliativos, enquanto a imprensa exibe em cores cada vez mais realistas a indigência da população pobre. E, agora, gra¬ças à globalização dos meios de comunicação, a pobreza dos países em desenvolvimento se transforma em manchete internacional.

Cada vez mais evidente, a pobreza é estigmatizada, quer pelo caráter de denúncia da falência da sociedade e do Estado em relação às suas funções junto à população, quer pelo contraste com a abundância de produtos, ao qual já nos referimos, quer pelo perigo iminente de convulsão social que para ela aponta. A violência e a agressividade aumentam, criando um clima de guerra civil nas grandes cidades, onde os índices de criminalidade são alarmantes. Ao medo e à insegurança, gerados na po¬pulação, associam-se o preconceito e uma atitude de discriminação contra de violência e brutalidade, as chacinas, os linchamentos e os assassinatos.

Os mais variados estudos procuram caracterizar de maneira científica pobreza, buscando suas causas, denunciando responsáveis, ou procurando tratá-la como um fenômeno dissociado da sociedade. Chegou-se a fazlar em “cultura da pobreza” — uma série de normas, valores, hábitos e fomas próprias de linguagem que se desenvolveriam na população carente. Realmente, os excluídos dos benefícios da civilização tecnológica acabam por criar mecanismos próprios de sociabilidade, assim como estratégia de defesa e sobrevivência. Considerar, entretanto, essas formas de comportamento de forma isolada — e não como resposta às condições estabelecidas — é uma atitude estigmatizante e ideológica.

A pobreza é constantemente afastada e excluída do convívio social, eximindo-se de responsabilidade os que com ela se relacionam direta ou indiretamente. Até mesmo os estudos teóricos refletem essa política de exclusão, ao analisar a pobreza como um fenómeno em si mesmo. Se aquele contingente não participa dos benefícios do restante da população e não consome os bens produzidos, certamente algum segmento o faz por ele. Só as análises econômicas preocupadas com o desenvolvi-lento do mercado interno — como elemento fundamental e necessário ao desenvolvimento das nações — têm procurado alertar para o fato de e a população carente representa uma fragilidade e uma ameaça à estrutura social como um todo. Essas parcelas excluídas representam um dessperdício de recursos humanos e uma disfunção do sistema econômico que deixa de ter nesse segmento da população um importante contingente de consumidores da indústria nacional.

O distanciamento — social e ideológico —, a alienação, a discriminação e a estigmatização que recaem sobre a pobreza não ajudam a encontrar soluções para o problema nem evitam que as desigualdades sociais aumentem, principalmente agora que a falência das economias coletivistas no mundo colocou o liberalismo como tendência universal. Por mais eficientes que os princípios liberais sejam para o desenvolvimento da sociedade tecnológica e do capital, não podemos esquecer que eles têm graves consequências para aqueles setores sociais que, não assuimindo qualquer capital, têm desempenhado papel indispensável na acumulação de bens e riquezas por parte dos grupos dominantes.

Um exército de reserva?

Procurando entender o papel da população marginalizada nas grandes cidades para o processo de desenvolvimento do modo de produção capitalista, Karl Marx criou o conceito de “exército industrial de reserva”. Segundo Marx, a população desempregada ou subempregada que vivia na pobreza junto aos grandes centros industriais representaria uma força de manobra na constante luta entre trabalho e capital. Em épocas de conflito e mobilização da classe trabalhadora, e principalmente durante períodos de greve, essa massa despossuída representaria um contingente de trabalhadores empregável a qualquer momento.

Sem qualificação, sem emprego, sem assistência, os marginalizados das cidades são operários virtuais, recrutáveis a qualquer momento, um reduto de mão-de-obra barata que anseia por uma situação regular. Marx reconhecia, assim, que o desemprego não é condição de quem não quer ou não está apto ao trabalho, mas resultado de uma inelasticidade na oferta de emprego. Essa teoria analisa a marginalidade como parte do sistema e não como um elemento exterior a ele; por outro lado, explica o preconceito e a desconfiança que vitimam a população carente, até mesmo por parte das camadas mais baixas da população. Explica também a violência de que é alvo essa parcela da sociedade, quer por parte dos poderes públicos, quer por parte da própria população civil.

A globalização da economia vem provocando o “dumping social”, ou seja, com o objetivo de tornar os preços mais competitivos no mercado internacional, procede-se à redução drástica dos custos com mão-de-obra, pelo emprego da mão-de-obra infantil e do trabalho temporário e informal. Além disso, com a robotização da indústria, que coloca em disponibilidade massas de trabalhadores, e com a exigência cada vez maior de trabalhado¬res qualificados, o conceito de exército de reserva precisa ser reavaliado. Em primeiro lugar, porque o desemprego cresce em número e em diferentes parcelas da população, agora chamado desemprego estrutural. Em segundo lugar, porque a tecnologia de vanguarda torna a população marginalizada inaproveitável na indústria. Em terceiro lugar, porque, ao que tudo indica, abre-se, nos países mais ricos, uma tendência de permanente diminuição da jornada de trabalho na indústria. Novas relações e novos conceitos de trabalho emergem no mundo: terceirização, trabalho autônomo, desemprego, subemprego, emprego temporário, e assim por diante.

Um dos principais problemas da competição internacional é o chamado dumping social, que consiste na busca de preços competitivos no mercado à custa do aviltamento do trabalho. A competição internacional não pode mais tolerar, em qualquer dos seus níveis, a exploração de crianças ou adolescentes ou mesmo de seus pais por meio de regimes despóticos de trabalho, até porque os efeitos do mencionado dumping social findam por propiciar, além da injusta competição internacional, uma crise no próprio sistema produtivo que aumenta a quantidade de produtos e diminui, perversamente, a capacidade de consumo de um número cada vez mais crescente de pessoas.

DE MASI, Domênico. O futuro do trabalho: fadiga e ócio na sociedade pós-industrial. Rio de Janeiro/Brasília: José Olympio/Ed. da UnB, 1999

É diante disso tudo que a pobreza parece um fenômeno constante e assustador, que exige medidas conscientes e responsáveis. Um esforço conjunto se faz necessário envolvendo políticas estatais, como os Bancos do Povo, e a criação de Organizações Não Governamentais que desenvolvam projetos de assistência social, alfabetização e capacitação para o trabalho. Programas comunitaristas, como são chamados nos Estados Unidos, onde surgiram, têm procurado envolver a sociedade em atividades de ajuda à população carente. Afinal, se a economia tende a crescer e a se desenvolver, e se a jornada de trabalho e o número de empregados diminuem, devem restar no futuro pessoas e tempo que podem ser destinados a esse fim. Não podemos esquecer, entretanto, que a opção por um sistema político que favoreça uma integração maior da população em geral à sociedade ainda é a forma mais eficiente de combate à pobreza.

Atividades

Compreensão de texto:

1 Por que a pobreza incomoda mais a sociedade contemporânea do que as sociedades do passado?

2 De que modo alguns cientistas responsabilizam o sistema social pela geração de pobreza?

3 Que relação é estabelecida entre pobreza e violência?

4 O que você entende por “exército industrial de reserva”?

5 Por que esse conceito deve ser repensado na sociedade de hoje?

6 O que é dumping social?

7 Como vivem as camadas pobres nos grandes centros urbanos?

8 Vídeo: Notícias de uma guerra particular (Brasil, 1999. Dirigido por Walter Salles) – Documentário sobre o tráfico e a violência em favelas do Rio de Janeiro.
Esse vídeo traz depoimento e possibilita analisar como a exclusão e a pobreza vêm tornando o crime organizado uma saída para uma saída para as populações marginalizadas (http://www.youtube.com/watch?v=EAMIhC0klRo)

9 Explique a afirmação a seguir com base no texto deste capítulo: “Pobreza não e uma escolha do indivíduo nem uma condenação divina. É resultado de forças sociais.” (GANS, Herbert, In: Veja, 17 jan. 1996)

10 Pesquise a letra da música Haiti, composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1993, e analise-a, relacionando o conteúdo da música com os conceitos estudados noeste capítulo.

BIBLIOGRAFIA

COSTA, Cristina. Sociologia: Introdução à ciência da sociedade. 3 ed. São Paulo: Ed. Moderna, 2005.

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“Sorria, você está sendo… vigiado!”

Posted on 23 setembro 2013 by admin

Um dia desses, ao entrar numa loja de conveniência para pagar o combustível do meu carro, dei-me conta da quantidade de avisos de “proibido” que me cercavam (veja as fotos tiradas do meu celular). Já frequento esse estabelecimento há algum tempo Continue Reading

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