Archive | “Pano pra manga”

Minhas inquietações quanto à igreja e os debates sociais

Posted on 01 abril 2015 by admin

Na agitação do dia-a-dia, ouso rebelar-me contra o frenesi do ativismo e parar para refletir um pouco. Parar não está mais na agenda de ninguém. Não há mais espaços em branco em nossas agendas que nos levem à reflexão, ao “não fazer” para refletir sobre o “ser”. Por isso parar a fim de refletir é um ato de rebeldia contra um sistema que nos consume por inteiros, levando-nos a ganhar o mundo enquanto vamos perdendo a nossa própria alma.

O motivo dessas linhas é pôr em questão a maneira como a igreja de Cristo vêm se posicionando diante de tantas demandas sociais que surgem todos os dias. Tenho acompanhado alguns posicionamentos de cristãos diante de temas tão graves e me pergunto se estaríamos prontos para ouvir o que Jesus teria a dizer sobre a igreja do século XXI.

Na medida em que surgem os debates que mobilizam a nação, a sensação que tenho é de que a agenda da igreja está cada vez mais longe da agenda de Jesus. O discurso moralista, inflamado de ódio e carregado de senso comum por parte de alguns setores da igreja me deixa preocupado. Preocupo-me pelo fato de que quem fala pela igreja, não a representa e nem está comprometido de fato com a mensagem dela. Entreguei-me desde a mais tenra adolescência para militar por esse organismo que, creio eu, é a esperança para mundo, mas na medida em que acompanho com perplexidade o atrofiamento da mensagem genuinamente cristã que dá espaço para um discurso que fala pelo dominador, confesso que me pergunto se vale a pena permanecer na peleja. Tenho lutado para não perder as esperanças, mas a cada posicionamento contrário de cristãos frente a questões sobre as quais Jesus se colocaria a favor, é como um golpe nessa esperança que tenho tentado manter viva.

Quando ouço discursos de ódio, quando vejo que o moralismo se põe acima da misericórdia, quando percebo o aburguesamento da mensagem cristã encarnada na teologia da prosperidade que se tornou hegemônica nos púlpitos das igrejas, quando percebo a instrumentalização da bíblia que é usada para justificar interesses escusos, sinto que o oprimido está ficando cada vez mais sem uma voz que lhe defenda – e não apensa sem um defensor, mas com aqueles que seriam os únicos a lhe defenderem, agora como seus acusadores. Onde vamos chegar com isso? Criaremos a versão pós-moderna da Ku klux Klan (uma organização protestante de intolerância contra os excluídos sociais)?  A perda da esperança da igreja na restauração do homem tem me feito perder a esperança nela. Esses dias fui duramente criticado por um homem cuja foto do seu perfil tinha um batistério como pano de fundo – então pensei: “como alguém que tira uma foto na frente de um símbolo de regeneração humana pode pensar assim?”. Isso nos diz que o batistério deixou se ser o lugar em que olhávamos para homens e mulheres sem jeito diante de ma nova chance, para ser um ato pró-forma de adesão à igreja, de preferência por pessoas socialmente aceitas.

Preocupo-me com o fato de que o vácuo que temos deixado seja preenchido justamente por correntes contrárias ao Evangelho de Cristo. Ao nos calar em relação ao oprimido e ao desamparado, quem assumirá a sua defesa?

Acredito que o marxismo, por exemplo, foi uma vingança da sociedade contra a omissão do Corpo de Cristo. Ali o pobre explorado estava no topo da lista da sua pregação, enquanto a religião estava no topo da sua lista de inimigos. Hoje presenciamos horrorizados grupos extremistas que se articulam ao redor do mundo desafiando a ordem e a paz, mas não podemos esquecer que tais grupos surgem no vácuo deixado por quem poderia exercer o poder de maneira justa.

Sugiro que nos voltemos para as páginas do Evangelho e estudemos cuidadosamente como Jesus se posicionou em relação ao órfão, à viúva, ao encarcerado, ao pobre, à prostituta, aos poderosos e ricos desse mundo, aos governantes e aos religiosos. Diante de um debate sério e comprometido com a mensagem e vida de Jesus, estaremos prontos para perceber o mundo que precisa de transformações profundas.

Marcos Arrais

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“Alemanha x Brasil” ou “Trabalhador x Aventureiro”?

Posted on 10 julho 2014 by admin

 

O apito toca e o jogo começa. Sem aviso prévio, o “gigante pela própria natureza” vê-se desnorteado numa goleada sem precedentes na sua gloriosa história  de mundiais. O time alemão massacra o time canarinho que sai de campo diante de um vexame histórico aos olhos do mundo inteiro.

Muitas explicações têm sido dadas para, nas palavras do goleiro Júlio César, “explicar o inexplicável”. Mas será que é tão inexplicável assim? Para “explicar o inexplicável”, sirvo-me das ciências sociais e mais especificamente do pensamento do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda que, ao meu entender, explicou tão bem a psique do brasileiro em seu livro “Raízes do Brasil”. No capítulo “Trabalho e Aventura”, Holanda contrapõe as figuras dos seus tipos ideais: o português com seu ímpeto para a aventura e a imprevidência – e o holandês protestante com seu “espírito de empreendimento metódico e coordenado, em capacidade de trabalho e coesão social”.

Historicamente arrastamos por aqui o ideal de “colher o fruto sem plantar a árvore”. É aquela “suavidade dengosa e açucarada” que se entranha em todo o tecido social brasileiro desde o período colonial. Assim, o privado serve de base para o coletivo, o individual para o social, por isso “as relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós”. Isso plasmou uma característica avessa à rigidez e favorável à desorganização e à informalidade. Formaliza-se a informalidade mesmo nos tratos públicos. Aqui se vê o “homem cordial” com seu comportamento afetivo e impessoal, que apela para a emotividade, mas esconde as relações de poder e opressão. Nasce o típico malandro brasileiro que com seu “ziriguidum” e cheio de “quas quas quas” transforma o espertalhão e o gigolô num modelo de herói nacional.

Pois bem, é essa psicologia que entra em campo com a terra de Carlos Magno, Otho, Lutero, Beethoven, Schumacher, Einstein, Nietzsche, Marx, Weber, Freud etc., etc. Quando entra em campo o aventureiro com sua emotividade e informalidade (afinal de contas por aqui aplaudimos quando cantamos o hino e ainda extrapolamos mesmo depois que o tempo regulamentado para cantá-lo acaba) e o trabalhador com sua austeridade, disciplina e resiliência de duas grandes guerras mundiais. Quando cantamos o nosso hino, o fazemos com emotividade; quando eles cantam, o fazem com solenidade – Holanda observa que “no Brasil é precisamente o rigorismo do rito que se afrouxa e se humaniza” – isso favorece as explosões emocionais que tanto caracterizam nossos comportamentos sociais. Com todo respeito e medidas as proporções, é o mesmo que comparar “Fred”  e “Beckenbauer”!!

Não estou aqui me posicionando contra o nosso time e nem arriscando palpites sobre como deveria ter sido o esquema tático do Felipão, mas sugerindo que podemos tirar lições preciosas dessa experiência: Por que um país que se levantou das cinzas tenebrosas das duas mais terríveis guerras da história e hoje é uma das maiores potências do planeta venceu o “país do futebol” (um mito absurdo que criamos)?

O Brasil ainda é um país que precisa ancorar-se no personalismo. Aqui ainda vence eleições quem tem carisma e não quem tem propostas. Procuramos um salvador da pátria: um Vargas, um Lula ou quem sabe um Neymar e, quando eles nos faltam , resta-nos um sentimento de desamparo total! Como Sérgio Buarque de Holanda bem descreve, entra em campo o aventureiro que busca riqueza que não lhe custe trabalho, mas ousadia – e o trabalhador que “enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar”.

É isso aí!

Marcos Arrais

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Política Politicamente Incorreta

Posted on 13 junho 2014 by admin

 

Uma aluna da escola na qual dou aulas de Sociologia (E.E. Herbert Baldus) declamou esse texto num sarau que foi realizado no colégio. Achei muito legal e resolvi pedir autorização a ela para postar no meu blog:

 

 

Soberania total,

Ditadura repressão, soco
Balas bombas de efeito moral.
Quando Vargas se dizia pai do meu povo
Zumbi se fazia memória depois de morto.

DOPS
Departamento Original do Político Safado.
Dopado
Uma dose de Militarismo
Um departamento criado após o 2º Ato institucional, que é o bipartidarismo
Tanto Nacionalismo.
Aqui jaz o comunismo.

O que UNE o PCB?
Militantes Comunistas que tem proceder?
Vai saber.
Tanto politicagem comprada por ai sem nota fiscal
Homens e mulheres são exilados sem valor moral
Naquela época
Tortura e assassinato era normal.
Presidente ditador massacrava o povo e jamais foi preso por crime passional

Manifestações sociais,culturas
Dando suas criaturas
Elis Regina, Chico Buarque e hoje temos o Racionais
Isso, sem contar o trem das onze que passou
E a nossa Saudosa Maloca que desabou

Um estado Novo
Olha quem chegou!
O Neoliberalismo!
É uma falsa Democracia que se institucinalizonou

Que farsa Pátria Amada!
Hino Nacional
Passando sua mensagem utópica
Escondendo um Brasil desigual

-Fernanda Ferreira

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Lei da palmada e o paternalismo estatal

Posted on 27 maio 2014 by admin

Esta semana foi aprovada a chamada “lei da palmada” rebatizada como “Lei Menino Bernardo”. Não é a toa que deram esse nome à lei. Como é típico no Brasil, o parlamento, na maioria das vezes aprova leis quando existe uma comoção nacional. Não há reflexão sóbria.

A Lei Menino Bernado protege as crianças vítimas de maus tratos – isso é fato e não precisamos discutir, mas também mostra o quanto vivemos num Estado paternalista (e há uma diferença entre “Estado” e “governo”, portanto não me refiro a um governo específico) que cada vez mais adentra o espaço privado e interfere diretamente na vida do cidadão. Esse estado paternalista desconfia da capacidade do cidadão em dar rumo à própria vida e decidir o que é melhor para a educação de sua família.

O velho Werber estava certo quando dizia que o Estado é o único que detém o monopólio da violência legítima. Assim, bater fica por conta das autoridades civis e militares – já não é mais do foro familiar. O pai não pode disciplinar o filho rebelde, mas todo o dia o cidadão é vítima de violência física e simbólica estatal.

Qual será a próxima lei a ser sancionada? Não entrar em casa com sapatos sujos? Quem sabe aplicar multa por não dar descarga!
Lei é uma coisa, cultura é outra. Será que estamos diante de mais uma daquelas leis que não pegam?

Defendo uma consulta popular para esse tipo de decisão, afinal não vivemos numa democracia? Mas como dizia Tocqueville, a Democracia é “tiraia da maioria” – decisões são empurradas goela abaixo de todo mundo.

Marcos Arrais

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Religiosidade Flex – Parte 03

Posted on 03 fevereiro 2014 by admin

 

Simpatia  góspel ou contextualização moderna da fé? Na busca por fiéis, vale mesmo tudo ou existe algum limite? E se existe, qual seria?

A imensa diversidade religiosa a qual me referi em artigos anteriores se dá em parte pelo que o sociólogo Max Weber denominou de um processo de “desencantamento” em que o homem deixaria de explicar os o mundo como resultante de fenômenos mágicos para entende-los a partir de fatos científicos. Assim, a religião vai deixando de ser um assunto público para restringir-se à esfera privada (embora sua influência no público seja gigantesca). Com a desestatização da religião, abriu-se um vácuo para um pluralismo religioso, uma vez que não há mais nenhuma centralização desse aspecto por parte do Estado. Weber então apostou na “secularização”, onde as pessoas passariam de uma atitude de “recusa do mundo para uma atitude de aceitação” (Guerreiro, 2013, p.192). Dessa forma a religião vai perdendo o seu papel de legitimadora da sociedade para se tornar um assunto estritamente pessoal.

Ocorre que a perda desse espaço deu-se mais no âmbito das religiões majoritárias como é o caso do cristianismo representado pela Igreja Católica, que se transformou no maior “doador” universal de fiéis para as outras religiões. Deste modo, abriu-se caminho para que novos movimentos religiosos surgissem no cenário social – é o que alguns estudiosos do assunto já chamam de “retorno ao sagrado”, “reencantamento” ou “descecularização”.

Para a socióloga Françoise Champion (1997), a característica marcante da nova religiosidade é seu aspecto de bricolagem, ou seja, o próprio indivíduo monta e remonta o seu conjunto de crenças e práticas de acordo com o que mais lhe for conveniente. É a religião à la carte. Para a autora, é mais que um sincretismo, é um ecletismo, uma vez que não existe uma síntese, mas a justaposição de diversos elementos provenientes das mais diversas fontes religiosas. Como afirmei anteriormente, o que interessa não é “como” funciona, mas “se” funciona.

Portanto, presenciamos uma religiosidade flutuante e difusa – flutuante porque ela transita entre as mais diversas formas de fés – e difusa porque não se sabe ao certo onde começa e termina a influência de determinadas crenças na montagem dessa criatura que mais lembra aquela criada pelo doutor Frankenstein!

O protestantismo não ficou livre desse fenômeno, mas adaptou-se tranquilamente num processo simbiótico onde crendices populares fundiram-se a dogmas entes pétreos. Assim deu-se origem a uma teologia “sem pé e sem cabeça”, ou pelo manos com pés e cabeças montados pelo pragmatismo moderno.

Sem preocupação com coerência, vamos assistindo pastores vestidos de branco com a proposta de “tirar encosto” usando sal grosso e ervas, à semelhança de pais-de-santo; presenciamos também padres que trocaram a batina pelo terno e gravata e fazem fervorosas prédicas ao estilo pentecostal. Claro que a questão não está na roupa em si, mas no mundo simbólico que gira em torno dessas indumentárias. Assistimos seitas exóticas, para não dizer bizarras, como a dos “templários” em que fica explícito o objetivo financeiro no angariamento de fiéis. Há também as “igrejas de ateus” em que há coleta de ofertas, pregação e música em seus “cultos”. Na pós-modernidade há espaço pra tudo!

Estaríamos caminhando para uma espécie de colcha de retalho religiosa em que a preocupação com a originalidade seria a última coisa a ser pensada, ou caminhamos para um diálogo cada vez mais tolerante entre crenças que deveriam ser naturalmente incongruentes?

Marcos Arrais

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Religiosidade Flex – parte 02

Posted on 30 janeiro 2014 by admin

Vai uma pizza aí? Meia calabresa e meia mussarela? Ou seria melhor meia de strogonoff e meia frango com catupiry? Você também pode escolher com quatro sabores: um de carne seca, outro de camarão e os outros dois podem ser divididos em chocolate branco e beijinho.

Não seria a pizza “à moda da casa” ou “ao modo do freguês” um retrato do sincretismo religioso brasileiro? No segundo país que mais consome pizza no mundo tudo pode desde que atenda ao paladar eclético tupiniquim.

Quando falo de sincretismo, refiro-me ao processo de fusão cultural, em que vários elementos se mesclam dando forma a um novo jeito de ser. Isso não é novidade numa nação que resultou da confluência de vários povos. Aqui tudo pode: pode ser católico aos domingos, evangélico nas segundas, espírita kardecista nas terças, budista nas quartas, muçulmano na quintas, umbandista nas sextas e aos sábados ainda sobrar tempo pra ir à sinagoga judaica – isso quando não colocamos tudo entre dois pães e fazemos uma espécie de “X-tudo”! Nesse processo assimilatório, o povo brasileiro construiu sua personalidade identitária sincrética, a qual o antropólogo Darcy Ribeiro chama de “ninguendade”, ou seja, somos e ao mesmo tempo não somos.

Aqui é possível ir à missa de libertação, receber o lencinho ungido, beber a água abençoada (prática terapêutica comum no espiritismo kardecista), levar para casa a rosa consagrada, fazer promessa no terreiro de Iansã e pagar a graça recebida na igreja de Santa Bárbara, como bem retrata o filme “O pagador de promessas” (que, aliás, recomendo).

Tomando emprestada a figura do colonizador português “aventureiro”, criado por Sérgio Buarque de Holanda (um “tipo ideal” na linguagem weberiana), onde o “seu ideal será colher o fruto sem plantar a árvore” e deseja a prosperidade sem custo, os títulos honoríficos, as posições e riquezas fáceis “tão característica da gente da nossa terra” (Holanda, 2013, p.46), plasmou-se o comportamento do brasileiro acentuadamente pragmático, imediatista, utilitário, aproveitador, onde o que importa não é a origem daquilo que se acredita (“de onde vem?), mas a função do que se acredita (“para que serve?”).

O comportamento religioso brasileiro tem sido como um carretel de linha que de desenrolou ao chão e não se sabe ao certo onde se encontra a ponta. Nas palavras de José Bittencourt Filho: “O que se torna de difícil compreensão é a pluralidade das concepções religiosas num mesmo indivíduo. Em outras palavras, o que chama a atenção na religiosidade brasileira média (…) é a coexistência numa só pessoa de concepções religiosas, filosóficas e doutrinárias por vezes opostas e mesmo racionalmente inconciliáveis” (Filho, 2003, p.68).

Acresce-se a esse fator, o atenuante de termos a nossa base religiosa fundamentada na magia das tribos indígenas panteístas que aqui já estavam, os ritos da religião afro que chegaram com os escravos e o misticismo do catolicismo medieval dos colonizadores, criando uma espécie de religiosidade de folclore, em que cada um professa uma religião oficial, mas cultiva uma espiritualidade conveniente.Temos, assim, pessoas pertencentes às elites intelectuais carregando cristais e aromatizadores e frequentando secretamente a feiticeira semianalfabeta na favela, ou mesmo protestantes reformados que não perdem um culto pentecostal de revelação na casa da profetiza.

A verdade é que nesse vasto leque de opções, vamos construindo o nosso próprio mix de crenças.

 

Marcos Arrais

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Religiosidade Flex – parte 01

Posted on 29 janeiro 2014 by admin

“É álcool ou gasolina?” – “Tanto faz!”. Assim anunciava a campanha publicitária da Fiat para divulgar os novos veículos flex que entravam no mercado. Com motores adaptados para os dois tipos de combustíveis, os novos carros entraram no mercado prometendo comodidade, conveniência e economia.

Não seria tal ideia compatível com a natureza mestiça do brasileiro? Por sermos um povo de muitos matizes culturais, não nos incomodamos quando o assunto também é religião. Para se ter uma ideia, no Senso de 2000 foram apontadas pelo menos 35.000 confissões religiosas em território nacional. Isso mesmo: t-r-i-n-t-a-e-c-i-n-c-o-m-i-l. Isso dá a ideia do nosso imenso pluralismo religioso e cultural, e demonstra a multiplicidade do caráter largamente assimilatório do povo brasileiro que já em sua formação fora constituído por um vasto leque cultural de povos que aqui fincaram suas raízes.

A facilidade com a qual o brasileiro aceita, incorpora e monta seu próprio repertório de crenças, além de ter sua causa em fatores peculiarmente culturais, também encontra sua explicação no espírito pós-moderno, bastante relativizado e tolerante. O Sociólogo Zygmunt Bauman, expressa muito bem essa realidade quando trata da modernidade líquida, afirmando que a base social que apresenta rigidez é substituída pela flexibilidade com a qual o homem pós-moderno se comporta em todos os campos da sua vida, inclusive o religioso. No caso brasileiro, temos o agravante de sermos um povo que desde as suas raízes coloniais abrigou com facilidade as confissões religiosas e comportamentos culturais que aqui chegaram. Somos uma cultura acentuadamente híbrida, formada a partir de diferentes povos que se fundiram quando aqui se encontraram. Isso explica a “dupla (ou mais) pertença” com a qual o indivíduo pós-moderno, multi-identitário se comporta. Temos, então, umbandistas que se consideram católicos e protestantes que incorporaram práticas xamãs e umbandistas em seus cultos, tais como energização de objetos, usos de rituais próprios das religiões afros, e invocação de espíritos, sem mencionar a Nova Era com suas práticas esotéricas que refletem muito bem o espírito líquido do homem pós-moderno, desvinculado de instituições.

Dessa forma, criamos a nossa própria religiosidade. Uma religiosidade a brasileira. Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro “Raízes do Brasil” observa que “no Brasil, é precisamente o rigorismo do rito que se afrouxa e se humaniza” (HOLANDA, 2013, p. 149).

Parece que a religiosidade brasileira não se contenta com uma crença rigorosa, afinal de contas “tanto faz” quando a questão é resolver os nossos problemas. Dessa maneira, misturamos os combustíveis pois o que importa é fazer o carro andar!

 

Marcos Arrais

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Movimentos sociais e mudanças sociais

Posted on 21 junho 2013 by admin

Quando a sociedade precisa de explicações, os sociólogos entram em ação: entenda um pouquinho como funcionam os movimentos sociais. Então vamos la:

A vida política não ocorre apenas dentro da estrutura ortodoxa dos partidos políticos, sistemas eleitorais e representação em corpos legislativos e governamentais. Muitas vezes, grupos descobrem que seus objetivos ou ideais não podem ser alcançados dentro dessa estrutura ou são bloqueados ativamente por ela. Às vezes, a mudança política e social somente pode vir recorrendo-se a formas heterodoxas de ação política, como revoluções ou movimentos sociais.

O exemplo mais dramático e abrangente de ação política heterodoxa é a revolução – a derrubada de uma ordem política por um movimento de massa, usando a violência. As revoluções são acontecimentos tensos, animadores e fascinantes. De maneira compreensível, elas atraem muita atenção. Ainda assim, com todo o seu drama, as revoluções nãoi são relativamente frequentes.
O tipo mais comum de atividade política heterodoxa ocorre por meio dos movimentos sócias – tentativas coletivas de promover um interesse comum ou garantir um objetivo comum fora da esfera das instituições estabelecidas.

Os movimentos sociais são um aspecto tão evidente do mundo contemporâneo quanto as organizações burocráticas formais que muitas vezes opõem, e alguns estudiosos sugerem que podemos estar avançando para uma “sociedade dos movimentos sociais.

Os movimentos sociais podem ser vistos como atividades coletivas visando estabelecer uma nova ordem de vida. Eles têm seu princípio numa condição de inquietação, e derivam sua força motriz, por um lado, da insatisfação com a atual forma de vida e, por outro, de desejos e esperanças para um novo esquema de vida. A carreira de um movimento social mostra a emergência de uma nova ordem de vida. No começo, um movimento social é amorfo, mal organizado e sem forma, o comportamento coletivo está num nível primitivo… À medida que se desenvolve um movimento social, ele assume o caráter de uma sociedade. Ele adquire organização e forma, um corpo de costumes e tradições, liderança estabelecida, uma divisão duradoura do trabalho, regras e valores sociais – em suma, uma cultura, uma organização social e um novo esquema de vida (Blumer, 1969, p.8)

A teoria de Blumer sobre os movimentos sociais como inquietação social tem alguns pontos importantes. Por exemplo, ele acreditava que os movimentos podem ser “ativos” ou direcionados para fora, visando transformar a sociedade, ou podem ser “expressivos” ou direcionados para dentro, tentando mudar as pessoas que se envolvem. Exemplos disso são, respectivamente, o movimento dos trabalhadores que visava modificar a sociedade capitalista e o movimento da Nova Era que incentivam a transformar o “eu” interior.

Blumer também argumenta que os movimentos sociais têm um “ciclo de vida”, que envolve quatro estágios consecutivos. Primeiramente, existe um “fermento social”, quando as pessoas estão agitadas por alguma questão, mas relativamente sem foco e desorganizadas. Isso se transforma em um estágio de “animação popular”, durante o qual as fontes de insatisfação das pessoas são definidas e entendidas de forma mais clara. No terceiro estágio, são criadas organizações formais que são capazes de gerar um nível maior de coordenação com o movimento emergente, e se forma uma estrutura mais efetiva para fazer campanhas. Finalmente, vem a “institucionalização”, na qual o movimento, que se organizou fora da política em voga, começa a ser aceito como parte da sociedade e da vida política mais amplas.

[Anthony Giddens]

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Ideologia e Demagogia no Debate Público: “Quem manda aqui?”

Posted on 09 abril 2013 by admin

Preocupo-me quando perdemos o real motivo de um debate democrático, detendo-nos em questões periféricas ou secundárias. Enquanto ficamos na plateia desse espetáculo fundamentalista eleitoreiro, perdemos o real sentido Continue Reading

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O que fizeram com o dia internacional da mulher?

Posted on 08 março 2013 by admin

Vale pena lembrar que o Dia Internacional da Mulher só existe pela luta de milhares delas ao longo da história. Muitas delas foram mortas, como em 8 de Março de 1910 (data que motivou a comemoração), onde numa fábrica de Nova Yorque, um grupo de mulheres foi QUEIMADO VIVO Continue Reading

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